quarta-feira, 4 de novembro de 2009

CAPÍTULO XVII

RETOMANDO – BRENDA
Depois de um tempo afastada, fui numa noite na 3ª feira com dona Maria à igreja dela. A pregação foi dura. O pastor fez comparações entre Saul e Davi. Achei interessante os significados dos dois nomes; o primeiro quer dizer: pedido por Deus, o segundo: amado de Deus. Fiquei impressionada ao ouvir que Saul mandou matar o filho. O pastor deu ênfase ao egoísmo dele e mais pra frente disse que apesar de Davi ter “pisado na bola” se arrependeu. Lembrei da Carla. Alessandra contou sobre o fim de semana que ela passou lá e que tava preocupada. Eu também fiquei é claro. Apesar da gente se gostar tanto, sempre fomos muito diferentes. Meu ideal era casar, ter filhos. Meus pais pra mim sempre foram um exemplo. Com todas as lutas, tinham um casamento feliz e sei que continuavam se amando num amor maduro, sofrido pelas lutas da vida. Eles sempre estiveram dispostos a recomeçar. Eu também estava. Minha adaptação ao bairro da Penha foi muito mais rápida do que eu pensava. A loja crescia, a filial em Madureira também. Felizmente tudo tava dando certo. O próximo passo seria pra mim no começo do ano seguinte começar a faculdade. Não me arrependi absolutamente por ter trancado. Guardei dinheiro e poderia assim ter o bastante pra comprar livros ou apostilas que precisasse. Na verdade o meu desejo maior ao ir trabalhar na loja era o de retribuir aos meus pais os anos de sacrifício deles por mim. Fiquei com minha alma lavada por isso. Os últimos meses do ano davam-me a certeza de que tudo valeu. Estava pronta pra novas conquistas. Meu pai achava que eu exagerava, queria que eu me divertisse mais e sei que ele pensava que eu tinha um procedimento talvez muito maduro pra minha idade embora eu não deixasse de ser aquela menina sonhadora. Um dia, naquela mesma semana que eu tinha ido outra vez à igreja, ele conversou comigo no horário de almoço.
- Filha, eu queria muito falar com você.
- É pai? Fala.
- Em primeiro lugar queria dar a você os parabéns.
- Meu aniversário já passou. – eu brinquei
- Ah, engraçadinha! Eu quero dar a você os parabéns pelo seu empenho na loja, pela sua criatividade, pela clientela que conquistou.
- Muito obrigada. Mas acho que cê tem mais alguma coisa pra falar, até agora foi a introdução.
- Filha...eu aprecio sua determinação, mas acho que devia aproveitar mais a sua idade.
- Eu aproveito, pai.
- Será mesmo?
- Claro! Eu curto tudo o que faço.
- Mas você quase não se diverte.
- Ah, pai... É que muita coisa mudou, eu tô num outro esquema de vida. Meu trabalho é uma diversão pra mim.
- Mas você vai continuar quando for pra faculdade?
- Eu ajeito o horário, não se preocupa. Você é o meu patrão, mas não vou abusar do fato de ser meu pai
- Vocês jovens querem sempre abraçar o mundo com as pernas. Conciliar as duas coisas é difícil.
- Mas não é impossível. A Carla e a Alessandra conciliam.
- Tá, eu sei, mas é diferente.
- Nem tanto, elas vão se formar em Educação Física, tem pontos em comum com pedagogia.
- Você quer mesmo ser professora?
- Eu ainda vou ter meu colégio, pai.
- Você é tão sonhadora, filha.
- Pai, o sonho tem que permanecer na gente, se não a gente envelhece muito cedo.
- Mas como eu já disse, acho você muito madura.
- Mas não deixei de ser a sua menina. Eu quero crescer ajudando você e a mamãe e continuar sendo uma menina pra crescer com as crianças que vou conhecer, depois crescer pra conhecer quem será meu marido e crescer pra ter meus filhos e continuar a eterna criança que sou, que sempre quer crescer.
- Pôxa, filha... Entendi sua mensagem. A gente tá sempre crescendo, né?
- É, pai. Se a gente achar que já aprendeu tudo, a vida fica muito chata, muito sem graça. É natural que você tenha zelo por mim. A mamãe concorda com você eu sei, mas fica mais na dela. Eu gosto tanto de fazer coisas pra você, ajudar mamãe na cozinha, tirar os sapatos dela e colocar chinelos pra ela descansar quando chega do trabalho. Ajudar a fazer os bolos. Pai, eu nasci pra viver com família e lidar com gente. A vida é mais rica, tem mais beleza assim.
- Pôxa... Você é uma filha de ouro... Me deixa emocionado. Mesmo assim, ouve teu pai, não fica num ritmo acelerado demais quando iniciar a faculdade e antes de reabrir a matrícula, curte. Você há tanto tempo nem tem um namorado.
- Mas vai chegar o momento certo, pai. Por enquanto nem penso nisso. Verdade. Primeiro eu preciso conquistar o que é meu pra depois saber quando como e com quem vou dividir. Uma relação a dois deve ser muito bem pensada e eu só quero namorar tendo a certeza de que é o rapaz certo. Os que eu tive em Ipanema não contaram, não acrescentaram, foram coisa de menina, adolescente. Agora que eu tô entrando na vida adulta quero ter responsabilidade pra tudo, principalmente prum relacionamento sério.
- Filha, qualquer dia eu vou pedir conselhos a você.
- Eu guardo os bons conselhos que tive seus e da mamãe.
- Estava lembrando agora que você estréia como eleitora em breve.
- É mesmo.
- Já sabe em quem vai votar?
- Ainda não. Parece tudo igual. Os debates cansam, a propaganda política é o horário que a gente aproveita pra lavar a louça. Já aproveitei até pra lavar a cozinha. É mais produtivo.
- Você vai votar onde?
- Numa escola aqui perto.
- Vote consciente.
- Nem que seja em branco.
- Assim cê dá voto pra alguém que não queira dar.
- Ah, sei lá! Talvez eu vote no candidato que não seja tão ruim.
Eu continuava indo à igreja e quando meus pais inventavam algum passeio ou outra coisa que me prendesse em casa ou me fizesse acompanhá-los no domingo, ia num dia da semana. Fiquei cada vez mais curiosa sobre a Bíblia e comentei com dona Maria que queria entender melhor algumas passagens, queria ter mais facilidade em manejar a palavra de Deus. Foi aí que no fim de um culto numa 3ª feira ela ofereceu:
- Aqui está um presente pra você, uma chave bíblica pra encontrar com mais facilidade o que quiser saber.
- ‘Brigada, dona Maria! – agradeci abraçando e beijando muito aquela senhora que era tão carinhosa e que regava em mim o crescimento de curiosidade e interesse pela palavra de Deus.
Naquela mesma noite, antes de deitar, a propósito da proximidade das eleições, procurei na chave bíblica a palavra eleitos e chamou-me mais a atenção o que vi assinalado em Isaías 65 : 22: “Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam; porque os dias do meu povo serão como os dias da árvore, e os meus eleitos gozarão das obras das suas mãos.” Refleti sobre isso pensando em como seria bom um governo no qual os dirigentes fizessem boas obras. Eu sempre me considerei apolítica, mas pensava muito no bem estar das pessoas pois tinha a intenção de formar cidadãos conscientes. Desde cedo pensava no próximo, em alertar sobre os enganos da vida às pessoas mais novas ou da minha idade. Por isso sei que pra Alessandra e Carla eu era careta. Elas não eram individualistas, mas agiam mais por impulso, sem pensar muito. Alessandra era a mais impulsiva de nós. Porém, sei que quando convivíamos diariamente eu tinha alguma influência sobre ela, sempre a alertando, ponderando. Carla muitas vezes parecia perdida. Seus pais eram bons, mas às vezes um pouco rigorosos demais. Já os meus davam a medida certa, sempre me senti segura com eles. Mudanças começaram a ocorrer desde que passamos a morar longe uma da outra, mas de uma coisa eu sempre tive certeza: apesar da distância, levei o coração delas comigo. A alegria de cada uma era a minha alegria. A tristeza, a minha tristeza e a vitória, a minha vitória.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

CAPÍTULO XVI

TENTANDO ESQUECER – CARLA
Não sei o que seria de mim se não tivesse amigas tão fiéis como Alessandra e Brenda. Pôxa...elas sempre se esforçaram pra me ver feliz. Eu tava vivendo uma revolução, uma batalha sem armas contra um inimigo que desconhecia, pois o verdadeiro inimigo, é invisível. Hoje eu entendo o que se passou comigo, mas têm situações que levam anos pra ser entendidas. Eu compliquei, é verdade, mas hoje consigo entender.
Alessandra me convidou pra passar um fim de semana na casa dela. Logo depois do trabalho fui pra lá e cheguei ainda cedo. Curtimos muito a praia e conversamos. Pra ser sincera, achei melhor a Brenda não estar, pois, mesmo sendo uma boa conselheira, eu na época a achava a mais careta de nós três, mas nunca deixei de amá-la por isso. Minha doce amiguinha Brenda, tão sensata, por que não a ouvi? Mas é assim mesmo. Muitas vezes as pessoas que mais nos amam nos alertam, a gente não ouve e quebra a cara. Mergulhamos juntas, brincamos na água como duas crianças. Depois sentamos nas nossas cangas e conversamos:
- Ai, Lessandra, ‘brigada por ter me convidado. Tava precisando deste sol de Ipa, dessa água. Pena que ela não lava meus maus pensamentos. Queria que servisse pra lavar minha alma.
- Carla, amiga, para de se torturar. O que eu posso fazer mais pra você se sentir melhor?
- Não sei Lessandra. Nunca me senti assim. Tô mexida, apaixonada pela pessoa errada.
- É duro, amiga. A gente não escolhe de quem vai gostar. Eu não tô apaixonada, não vivi uma emoção tão intensa assim. Sei que falei umas coisas da boca pra fora sobre o Allan mas pelo menos descobri que não sou a pessoa fria que parecia ser. Eu queria me fazer de forte, mas descobri que tenho uma grande fraqueza. Todos nós temos, mas as nossas são diferentes. Espero que minhas ainda muito poucas experiências sirvam pra você, como as suas sirvam pra mim. A gente tá sempre aprendendo, vamos tirar um proveito dessa união de anos que a gente tem. Nossa vantagem sobre muitas pessoas que podem estar passando por coisas parecidas é a nossa amizade. Eu não posso ver nem você nem a Brenda sofrendo. Me faz muito mal, eu não fico em paz, não fiquei nada bem naquele dia do churrasco.
- Eu agradeço.
- Não é preciso agradecer, você também ficaria assim por mim.
- É...eu já fui egoísta também. Quando a gente soube no mesmo dia que ia em breve se separar, seu problema era muito maior que o meu, que o da Brenda.
- É humano a princípio achar que ninguém tá com um problema maior que o nosso. Mas depois a gente sai daquela redoma e vê a realidade. Eu precisei de mais apoio, você e a Brenda deram, mas passou. Este momento agora é seu. Se a Brenda passar por dificuldades, a gente com certeza vai dar apoio à ela.
- Eu tô até me sentindo mal por estar mais à vontade sem ela aqui. Ela sempre foi tão mais ajuizada, ponderada.
- Ela quer o seu bem.
- Eu sei. Pra dizer a verdade eu até me sinto traindo a Brenda.
- Eu hein?! Por quê?
- É que... Lessandra, tá mais forte do que eu, acho que se o cara continuar me assediando, vou esquecer da culpa, esquecer da mulher dele, da educação que meus pais deram, dos conselhos da Brenda e...vou à luta por ele!
- Cuidado, Carla. Você tá muito seduzida pelo cara, usa a cabeça. Você pode estar cedendo ao desejo à atração e depois pode se machucar. Homens assim têm uma conversa boa, um jeito atraente, depois conseguem o que querem e jogam a garota fora.
- É...você pode estar certa.
- Sabe o que eu acho? Você nunca teve um namoro de verdade, sempre achou os garotos daqui de Ipa vazios, imaturos. Você gosta de homens mais velhos e esse cara te atrai por isso.
- Falou a psicóloga.
- Ah, querida, eu posso até nem entender a minha mente, mas a dos outros eu consigo até bem melhor. O que cê tá passando serve pra eu pensar porque não nego que eu poderia assim, como você disse, agir por impulso e me machucar também, claro.
- É muito difícil lidar com a vontade, reprimir o desejo. Parece que o proibido atrai mais.
- Eu entendo, mas...pôxa, Carla, com tanto cara pra você se interessar, tinha que ser logo por esse?
- Pra você ver...sei lá Lessandra, é uma coisa que eu não sei controlar.
- Eu acho que cê tá até controlando. Senão, não estaria aqui agora.
- É, mas não sei até quando. Foi bom desabafar com você e com a Brenda, mas não tiro o cara da cabeça.
- Sabe o que cura isso? Uma boa saída à noite. Vou ocupar sua cabeça com outras coisas, quem sabe você não conhece outro cara pela “night de Ipa”?
- Ah, mas e aí? Eu morando em “Paci”?
- Vamos só curtir, amiga! Não pensa em compromisso. Se algum cara daqui gostar de você, vai querer logo te visitar lá e pode ser que seja o príncipe que te traga de volta a este bairro.
- Tá, eu topo.
Ficamos mais um tempo na praia conversando sobre meus sentimentos confusos em relação ao Marcos. Contei sobre aquele dia que me vi forçada a aceitar a carona dele, que seu Arnaldo tava apoiando uma traição.
- Esses homens, são quase todos iguais. – Alessandra analisou – Digo quase, não por que eu ponha a mão no fogo por algum até que me seja provado o contrário, mas também procuro acreditar que em algumas coisas eles possam ser diferentes.
- O Beto quis se dar bem logo. Quando viu que cê não ia querer mais o Allan entrou dentro.
- É. Neste aspecto ele é igual a todos, mas acredito que neste momento não deve estar com outra. Nisto acho que ele deve ser diferente.
- Lembra quando a Brenda sugeriu esta hipótese em relação ao Allan?
- Lembro...eu falei da boca pra fora. Doeu vê-lo naquela noite justo com a Adriana. Foi uma dupla traição. Um cara com quem eu jogava aberto e uma garota que se dizia minha amiga.
- Será que ele não ia mesmo contar pra você, ou ela mesma não faria isso?
- Acho difícil. O que acontece é que as pessoas se envolvem, aí ficam com medo, deixam passar o tempo, arranjam desculpas e aí a gente sabe dessas coisas da pior maneira possível, como eu soube.
- Essa sua observação é um sinal de que você perdoou os dois.
- Eu sinto que sim. Encontrei com ele várias vezes na academia e ele ficou com vergonha de me cumprimentar, mas eu fiz questão de dar bom dia. Adriana também tava lá outro dia e eu também cumprimentei. Eu sou civilizada e sei que também colaborei pra situação chegar ao ponto que chegou. O sofrimento faz a gente amadurecer. Eu tô fazendo tudo pra que com o Beto seja melhor, mas ele também não é o amor da minha vida.
- Será que nós vamos saber o que é isso?
- Acho que você vai saber antes de mim.
- Não sei...acho que por um lado tento esquecer, mas por outro, tô quase caindo numa armadilha. Eu sempre disse que me entregaria ao homem certo na hora certa. Como é difícil ter coerência dos sentimentos com o que se pensa.
- Isso não é privilégio seu. Eu não fui coerente achando que ia conseguir ter um relacionamento tão aberto com o Allan. A gente pensa que sempre vai conseguir controlar os sentimentos, os pensamentos e as circunstâncias da vida mostram que não é tão simples como a gente pensa.
Voltei com Alessandra, descansamos, comemos e mais tarde o Beto ligou chamando Alessandra pra sair. Ela disse que me levaria e que não queria que eu segurasse vela. Foi aí que o Beto teve a idéia de levar um amigo dele, o Alex. Assim, fomos todos a uma danceteria em Copa. Alex até que era bonito, mas embora eu tentasse, não consegui me interessar por ele. Parecia um cara necessitado. Dançou comigo as músicas agitadas, mas depois nas lentas, deu pra me agarrar com uma força, que eu quase sufoquei. Com jeito, consegui sair daquela situação embaraçosa e pedi pra parar um pouco que eu tava cansada. Sentamos e o papo dele era muito chato. Só falava na faculdade, namoradas que teve, que as garotas tavam muito exigentes. Na primeira oportunidade que tive, falei com Alessandra que queria ir ao toalete e pedi que me acompanhasse. Entramos e eu falei assim que entrei.
- Lessandra, v’ambora?
- Por que Carlinha?
- Eu sei que sua intenção foi boa, mas aquele cara é um chato! Que papo mais furado que ele tem, como é vazio! Tô entediada!
- Carla, se coloca no meu lugar. Beto queria sair comigo e pra você não segurar vela, trouxe uma companhia. Guenta um pouco, menina. Será que não é você que tá com má vontade?
- Lessandra, desculpa, mas cada vez mais eu chego à conclusão que não me afino com garotões, gosto de homens mais velhos.
- Ai, Carla, eu tenho tanto medo que este seu gosto te leve a sofrer mais do que tem sofrido.
- A gente não escolhe de quem gosta.
- É, mas o cara tem a mulher dele lá e tá tirando seu sossego.
Fiquei de cabeça baixa, quase querendo chorar e Alessandra segurou meu queixo olhando firme pra mim.
- Cabeça erguida, Carla. Tenta curtir, eu tô aqui contigo, sempre que precisar.
Voltei e sentei, mas meu pensamento ficou distante e eu não conseguia aturar o papo do Alex. Como não ia pedir outra vez à Alessandra pra sair, como uma válvula de escape tomei uma bebida. Quando ia pedir outra, um cara que tava perto me ofereceu a dele e achei muito forte, engasguei e ele bateu nas minhas costas. Ficamos conversando. Ele era um pouco mais velho do que eu, até o achei atraente. Mas meu interesse durou pouco quando uma garota apareceu e disse pra ele na maior bronca:
- É só eu virar as costas que você começa, né?!
- Tô saindo fora! – eu disse dando as costas, fazendo questão de ignorar o que a garota dizia. Fiquei chateada e sentei ao lado do Alex, pois vi que não tinha outra saída. Bebi do copo dele e pedi mais bebida. Alessandra estranhou, mas eu disse ao ouvido dela:
- Pelo menos assim, eu consigo agüentar. – bebi de um só gole um copão. Pra extravazar, peguei Alex pela mão e o chamei pra dançar. A música tava agitada eu pulei, comecei a fazer palhaçadas. Me desequilibrei e acabei caindo. Ele me ajudou a levantar e eu fiquei com vergonha e chorei. Ele ficou preocupado, foi até legal comigo. Fez carinho no meu rosto me levou pra sentar.
- Cê tá bem? – ele perguntou, oferecendo um lenço pra eu enxugar as lágrimas.
Cobri meu rosto com o lenço e chorei muito mais. Foi um vexame. Alessandra foi compreensiva e me abraçou. Falando ao meu ouvido.
- Que é isso, amiga? Agora a gente vai. Cê não tá bem.
Eu abracei Alessandra forte e falei chorando.
- Me ajuda...
- Claro que ajudo, mas vamos lá pra casa, não fica assim.
Fiquei do lado de trás do carro com a cabeça no ombro de Alessandra que me consolava. Ela saiu antes do carro pra se despedir do Beto, que senti que estava chateado.
- Cê tá bem, gatinha? – Alex perguntou
- Não...tô péssima! – respondi chorando mais
- Como é que você, uma garota tão linda pode estar assim, tão triste? Cê tem uma vida pela frente.
- Eu queria é não ser linda como você disse! Queria que não olhassem tanto pra mim, preferia até ser feia, horrível pra não me sentir assim...deixa pra lá, desculpa...você não tem culpa de nada!
- Tá, eu também me desculpo pois queria ajudar e não consegui.
- Vamos, Carla. – Alessandra chamou e me amparou.
Beto ofereceu ajuda. Os dois me seguraram e Alessandra despediu-se dele e imediatamente me pegou e me colocou no chuveiro frio. Fiquei com tanta vergonha de ter dado o trabalho que dei! No dia seguinte não conseguia olhar pra Alessandra. Ela foi tão paciente, trouxe um chazinho pra mim.
- Desculpa Alessandra...perdão...- eu disse chorando
- Carla, não vai começar um novo festival de lágrimas. Eu entendi, não faz drama e toma este chá. Um dia você vai rir de tudo isso.
- Será?
- Não pensa mais nisso. Pensa no que você precisa fazer, na sua faculdade, no seu trabalho. Desliga. Vamos em frente.
Ai se fosse tão fácil! Eu até que tentei, mas sabia que no dia seguinte ficaria pertinho da boca do lobo.

CAPÍTULO XV

ABRINDO O JOGO – ALESSANDRA
Gostava de sair com o Beto. No início, acho que foi pra me vingar do Allan, pois assim que terminamos, o Beto apareceu e não perdi tempo, aceitei o consolo que ele me ofereceu e assim, valeu a troca. Troca parece um termo frio, mas Beto também não era o amor da minha vida. Mesmo assim, continuei a investir naquela relação que me dava mais satisfação. Com o Beto foi muito diferente, pois comecei a considerá-lo namorado mesmo, de andar de mãos dadas, coisa que eu pouco fazia com o Allan. Saíamos juntos e ele foi muito compreensivo quando no churrasco na casa da Brenda eu pedi licença e ficamos ouvindo a Carla. Esperou numa boa, sem reclamar nada. Continuamos a sair muito juntos e num fim de semana, de sábado pra domingo, num barzinho aproveitei pra me abrir com ele.
- Beto, eu quero te dizer uma coisa, ou melhor, muitas coisas. Eu me acho assim...complicada, sabe? Eu tenho um pouco de medo de me amarrar, acho que fiquei traumatizada com a separação dos meus pais. No íntimo eu sentia que eles já não tavam bem, mas queria me enganar, eles se acomodaram e eu também. Pra dizer a verdade, até hoje me sinto culpada pela separação deles.
- Mas que é isso, você não teve culpa...
- Deixa eu terminar, por favor.Eu sei que filhos não seguram um casamento, mas na minha cabeça eu devia ter encontrado um meio de unir os dois. Às vezes eu acho que inconscientemente me castigo como se não merecesse gostar verdadeiramente de alguém ou tivesse medo, resistência. Por isso eu não digo coisas como: te amo, mesmo por que ainda é cedo pra isso. Não acredito em amor à primeira vista e sim em atração. Não sei o que você pensa, mas não tô terminando com você, só senti necessidade de me abrir. A gente já sai junto há algum tempo, ficamos logo íntimos, então tô abrindo o jogo, jamais vou ser falsa sobre o que sinto. Agora, fala alguma coisa, pelo amor de Deus.
Beto me ouvia com atenção, com o olhar fixo e tranquilo. Quando acabei de falar, senti que ele gostou da minha sinceridade. Pegou na minha mãe com carinho e disse:
- É bom botar pra fora o que sente, mas eu também não cobro nem espero nada demais de você. Acho que você é fiel, não tem nenhuma intenção de me enganar, mesmo por que também há muito tempo eu tinha atração por você. Só ficava na minha por causa do Allan.
- Eu sei, mas nem eu nem você perdemos tempo, né?
- Você se sentiu liberada quando viu o Allan com a Dri.
- Fiquei com raiva dos dois, por que ela se fazia de amiga e ele deve ter achado que eu não fosse fiel.
- Você disse que tem medo de gostar verdadeiramente de alguém, mas acho que comigo tá sendo diferente. Ele não ia a todos os lugares com você. Eu já conheci em pouco tempo suas amigas que você tanto falava.
- Eu acho que tô tentando ser diferente.
- Tá conseguindo.
- Eu não tenho muitas expectativas, nem faço planos, mas você é mais companheiro do que o Allan.
- Eu tô de acordo com você. Mas acho que o medo de gostar mais, pra ser mais direto, de amar, não é só seu. Metade da humanidade tá assim. Muita gente tá se separando, namoros não duram, as pessoas por qualquer coisa ‘tão insatisfeitas.
- É. Eu procurava me satisfazer com o Allan, mas ao mesmo tempo não queria sofrer, por isso não soube conquistar nem deixar que ele me conquistasse totalmente. Pensando bem, nós dois fomos os culpados de não ter dado certo.
- Claro, foi sim. Tudo por medo.
- O medo impede o amor.
- É...
- Beto, diz sinceramente sem se sentir pressionado. Você me ama?
- Eu gosto muito de você. Sinceramente. Atração física eu tive desde o primeiro momento. Sei que a gente foi muito rápido e nem pensamos, mas você pra mim é uma pessoa especial. Se não der certo, vamos sempre ser amigos. Não quero nunca magoar você.
- Eu também não quero magoar e nem ser magoada.
- Mais uma coisa temos em comum.
- Você acha que também tem medo de amar?
- Acho que tenho um pouco de cuidado. Apesar de ter sido muito impulsivo no começo, de querer muito você e não ter segurado minha atração, tô me dando a chance de conhecer você melhor e uma coisa já apreciei muito na sua personalidade.
- É? O que? – perguntei sorrindo, satisfeita por ter ouvido o que nunca ouvi de ninguém.
- Você é muito amiga. Eu fiquei muito sensibilizado com o carinho que você dispensou àquela sua amiga, a moreninha, qual é mesmo o nome?
- Carla. Ela é muito importante pra mim, Beto, amo muito aquela menina, ela e a Brenda são pra mim mais do que irmãs, fomos criadas e crescemos sempre juntas, estudando no mesmo colégio. Ela tava com um problema que por um imenso respeito por ela não devo falar, mas fico mais triste do que se fosse comigo. Consegui manter a calma pra dar força pra ela, porque sei que ela faria o mesmo por mim, mas cê mesmo foi testemunha de como voltei chateada, triste, pensando como posso ajudar a Carlinha. Minha vontade era de ter ficado com ela abraçada, botar até no meu colo pra que ela deixasse aquela cascata de lágrimas jorrar inteira até secar, até ter certeza de que toda aquela dor tinha passado. – derramei lágrimas por Carla e Beto as colheu com o dedo indicador, acariciou meu rosto.
- Não fica triste, Lessandra, têm coisas que não tem jeito, as pessoas têm que passar por dores mesmo. Sorte dela ter amigas tão fiéis como vocês.
- Eu sei...mas ela tá sofrendo...tadinha.... Tô em falta com ela. Fico aqui falando dos meus problemas que não são piores do que os dela. Eu vou convidar minha amiguinha pra ficar um fim de semana comigo, ela precisa mudar de ambiente, curtir a praia de Ipa. Pode não resolver, mas quero fazer tudo pra suavizar a dor dela.
- Assim é que a gente se fortalece, Lessandra. Lembrando dos outros. O ser humano não nasceu pra viver só.
- Engraçado, como são as coisas. Anos mais tarde tomei conhecimento desta passagem: “E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2 : 18 - a), aí me veio à mente o que Beto havia dito naquele dia. Pensei na profundidade disso e como o Beto foi usado por Deus sem saber. Cheguei à conclusão que eu tinha uma raiz de amor muito grande em mim que eu mesma desconhecia. Minhas amigas queridas, Brenda e Carla, minhas almas gêmeas. Eu, ser humano imperfeito como todos, tive muitas falhas, inclusive com essas maravilhosas pessoas com quem sempre troquei confidencias, que me deram apoio e eu tentei sempre retribuir. Nossa amizade sempre foi tão especial, que não havia pessoas por quem eu pudesse sofrer mais. Se eu errasse com elas, sentia profundamente as conseqüências do erro. Fui injusta com elas também, mas aprendi com elas, sofri com elas, chorei com elas, sorri com elas, errei e acertei com elas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

CAPÍTULO XIV

INTERRUPÇÃO E PREOCUPAÇÃO – BRENDA
Nem tudo acontece tão perfeito. A semente é plantada, mas precisa ser germinada e quando não há quem regue, quem cuide, a planta pode morrer. Mas se houve um período de descuido e o jardineiro percebendo que aquela planta ainda pode crescer e florescer, não vai cortá-la fora e cuida dela outra vez. Portanto, meu crescimento inicial já havia acontecido e o jardineiro depois daria prosseguimento ao meu crescimento. Houve uma interrupção, mas tudo na vida tem um tempo. Eu estava com meus planos definidos para domingo, quando meu pai avisou:
- Neste domingo fica em casa filha. Suas amigas vêm prum churrasco aqui.
- Ah, pai, que pena...
- Pena?! Alessandra e Carla vêm prum churrasco aqui e você diz isso?!
- Não, é que dona Maria convidou pra ir à igreja.
- Vai ter muitas outras oportunidades, filha. Você agora quase não vê suas amigas.
- Tá pai.
Fiquei feliz por que ia ver Alessandra e Carla, mas chateada, pois queria ir à igreja com dona Maria. Porém, achei que um domingo a menos não faria tanta diferença. Pensei em ir cedo e voltar logo, mas minha mãe queria minha ajuda na cozinha. Foi bom porque eu reparei que a Carla tava muito inquieta. Alessandra parecia melhor, foi até com o novo namorado, o Beto, um rapaz muito simpático. Carla conversou bem menos e ficou num canto. Aproveitei que o pessoal tava mais animado conversando entre si e cheguei perto dela.
- Carlinha...- toquei delicadamente em seu ombro, mas mesmo assim ela assustou-se um pouco
- Ai!
- Desculpa, cê tava aí tão quietinha
- É...eu tava pensando.
- Em, que fofinha? Tá com uma cara assim...chateada
- Brenda...ah, deixa pra lá!
- Fala.
- Brenda, eu não tô me sentindo bem, não tô numa boa. Claro que achei bom vir pra te ver, mas tô com uns pensamentos que não consigo tirar da cabeça, não tô me sentindo à vontade em lugar nenhum.
- Mas houve alguma coisa?
- Houve, mas é dentro de mim, não é com ninguém, só comigo.
- Algum sentimento que você não consiga controlar?
- É por aí, mas acho melhor não falar.
Naquele exato momento, Alessandra veio até nós.
- Gente, tava olhando vocês conversando aí, parecendo que ‘tão de segredinhos e me deixando de fora?
- Nem deu tempo da gente ficar de segredinhos, você veio antes que a Carla pudesse falar alguma coisa.
- Ih, então tô atrapalhando? – Alessandra ficou surpresa com minha resposta que não foi intencional
- Não, desculpa, é que ela tá aí com essa cara que eu até pensei que tava acontecendo alguma coisa grave e até agora enrolou, enrolou e não falou nada.
- Ah, crise existencial! – Alessandra deu ênfase num tom de brincadeira
- Gente, eu não tô a fim de falar, cês assim me pressionam, eu não gosto disso! – Carla parecia quase explodir
- Calma Carla. – eu ponderei. – Só queremos ajudar.
- Eu não quero que meus pais também comecem a perguntar, tô vendo eles olharem pra cá.
- Vamos pra fora? – sugeri.
Continuamos a conversa no terraço.
- Carla, nós somos suas amigas e vamos dar nosso apoio. – eu iniciei
- Mas é claro! – Alessandra concordou – Eu deixei o Beto lá, pedi licença por que desde que cê chegou tá assim calada. Fiquei preocupada com você.
- Gente, ‘brigada pela consideração de vocês, mas eu não consigo falar, nunca pensei que ia me sentir assim.
- Pelo menos tenta Carla. – Alessandra insistiu – Cê fala, fala e não diz nada.
- Mas é que eu tô com sentimentos tão confusos, não sei como lidar.
- É amor, né? – eu deduzi
- É... – Carla abaixou a cabeça quase chorando, mas segurou-se, ficou com os olhos bem abertos evitando que as lágrimas viessem.
- Carla, gostar de alguém, não é ruim. – Alessandra argumentou
- Mesmo quando a pessoa não pode ser sua? – Carla a olhou fixamente
- Carlinha... – Alessandra teve compaixão e a abraçou. Foi aí que Carla desabou no choro e a levamos pro banheiro pra lavar o rosto. Ela ficou com Alessandra e eu trouxe água. Ela bebeu e acalmou-se.
- Eu não queria me sentir assim, mas foi mais forte do que eu. – Carla disse
- É melhor esquecer isso, Carla. – eu aconselhei
- Mas se o cara tá numa situação da qual ele quer sair? – Alessandra sugeriu a possibilidade – Você pode lutar por ele.
- Não é assim...ele..ele... – Carla ficou novamente com a voz embargada, mas finalmente falou – Ele é casado! Tem três filhos! – e desatou outra vez no choro.
- Então esquece, Carla! – eu disse
- Não é tão simples assim, ele mora perto, pôxa, tá sempre na academia! Pensam que eu não tentei?! Acham que eu queria sentir isso? A mulher dele é um amor de pessoa, vai à igreja perto da academia, outro dia ainda disse pra mim com a maior sinceridade, com o olhar mais puro que há muito tempo eu não via em alguém: Jesus te ama! Eu me senti horrível!
- Carla, amiga, numa boa, queridinha, respira fundo, se controla. Cê disse que não queria que seus pais vissem você como tava, se chorar alto eles vão acabar ouvindo e vão vir até aqui pra saber o que tá acontecendo. – Alessandra aconselhou.
- Eu tenho que me conter mesmo. Conter o choro, conter os sentimentos...uma vida de contenção! – Carla desabafou. Felizmente conseguiu se recompor. Lavou o rosto outra vez, bebeu mais um pouco de água e voltou pra sala. Quando nos despedimos, dei um abraço forte nela e falei ao seu ouvido:
- Conta comigo, amiga. Vou estar do seu lado. Mas me ouve, você deve esquecer o cara, isso não dá futuro.
- Tá...- ela respondeu como se concordasse, mas eu senti que seu maior desejo era entregar-se a ele.
Alessandra voltou com o namorado e sua mãe levou Carla e seus pais pra casa, como sempre fazia. Eu fiquei só pensando em Carla e até sonhei com ela. Sofri por causa da minha amiguinha, como nem por uma irmã eu sofreria. Elas sempre foram tão preciosas pra mim e eu agora via uma das duas sofrendo tanto. Alessandra parecia melhor. Contou o episódio com Allan e comparando com Beto, sentia que ela tava se abrindo mais, não tava com tanto medo de gostar mais de um cara e tratá-lo como namorado mesmo, convidando pra onde também fosse convidada. Talvez estivesse mesmo tentando consolidar este novo relacionamento. Parecia um pouco mais madura. Eu depois de namorinhos, não pensava ainda em ter ninguém. O trabalho na loja e em casa me consumia muito tempo. Foi melhor assim. Um ditado popular diz: “Mente desocupada é oficina de satanás”. É pena que tanta gente ocupada ainda dê espaço pra ele.

CAPÍTULO XIII

EMOÇÕES – ALESSANDRA
Agora com um carro eu podia dar meus giros, levava uma galera de volta da faculdade. Eu me sentia a tal sob quatro rodas, mas no íntimo, sentia que alguma coisa me faltava e eu não sabia o que era. Apesar da minha relação aberta com Allan e de sempre afirmar que não queria um compromisso sério, que não pensava em casar, acho que não era bem assim. Eu não me permitia. Eu não queria sofrer como minha mãe. Achei um gesto nobre da parte dela convidar meu pai pro meu aniversário, mas o que mais me surpreendeu foi a volta por cima que ela deu, uma mulher de fibra, que retomou sem medo a profissão de fotógrafa. Um dia, ela propôs ao Alberto, o dono da academia o que já tinha falado comigo:
- O que você acha da Alessandra aparecer em alguma propaganda da sua academia? Tirei umas fotos boas dela com roupas de ginástica, eu posso mandar pra agências.
A idéia foi a partir das propagandas que a Carla fazia pra academia em que trabalhava. Mais uma coisa que tínhamos em comum. Porém, nós duas teríamos com o tempo outras coisas mais em comum. O tempo...ai o tempo...pelas experiências que tivemos, nós viríamos a pensar em como teríamos sido mais felizes na vida se não tivéssemos agido tanto por impulso. Mas felizmente, nossa amizade foi o bem mais precioso que conquistamos. Brenda sempre foi a mais ajuizada, eu a mais impulsiva e Carla que sempre foi mais presa, parecia estar se soltando mais e eu achava bom, mas não entendia nada da vida, nem o quanto isso poderia custar, tanto a ela quanto a mim. Nós, fracos seres humanos sabemos que podemos errar, mas preferimos quebrar a cara ao invés de ponderar, buscando os exemplos de pessoas mais maduras e aprender com elas. Por que a gente é tão teimosa e depois sofre tanto? Isso também eu e Carla tivemos em comum. Seguir nossas vontades, nossos desejos, alimentar os impulsos e não ouvir a voz da razão, só a da emoção. Emoções eram só o que eu naqueles meus 18 anos queria viver. Mas as emoções também custam caro. Eu brincava com os meus sentimentos e com os dos outros. A vida traz estas ironias que a gente só percebe quando leva uma grande bofetada. Foi o que eu senti num fim de semana em que o Allan disse que tava cansado e que não queria sair. Assim, tudo pareceu aramado pra que eu começasse a apanhar e sentir a dor do que é ser usada. Mas e eu, será que não fazia o mesmo? Resolvi sair sozinha, dar uma caminhada por Ipanema e quando estou do outro lado da rua, quem vejo saindo de um bar? Allan. Quem tava com ele? Adriana, uma garota que se dizia minha amiga. É como falavam muito naquela época: “o castigo vem à cavalo”. Segui os dois, estavam conversando animadamente no bar. De lá, entraram na danceteria. Resolvi: vou até a danceteria. Entrei, tomei uns “tragos” pra me sentir com mais coragem. Muitos pares dançando e numa dança mais acelerada, quando Adriana que já tava alta e girava num passo de dança separou-se de Allan, eu entrei no meio.
- Oi! – eu disse num tom bem provocador olhando fixo pra ele.
Adriana ficou muda, de olhos arregalados. Eu a encarei também.
- Oi, Dri, continua a dança, cê tava tão inspirada.
- Pô, Lessandra, qual é? – Adriana resolveu me enfrentar
- Qual é pergunto eu sua...
- Sua o que?! Vai me xingar é?! Cê sempre disse que não tinha compromisso sério com ele!!
- Gente...vamos parar... – Allan tentou intervir
- Cala a boca seu galo garnizé! – falei pra ele – O assunto agora é entre mim e essa vadia que se dizia minha amiga!
- Ah! Essa é demais! – Adriana gritou – Você se acha santa é?
- Cala essa boca você também! Com tanto cara pra você sair, tinha que ser com ele?!
- Lessandra, a gente se gosta, eu ia te falar, mas... – Allan tentou explicar
- Mas teve peninha de mim? Isso não é papel de homem, tá? Se não me queria mais, podia ter me falado! Vocês homens são todos convencidos e iguais! “Se acham” por que malham em academia, querem ter um harém em volta, mas eu joguei limpo com você, não saí com nenhum outro, muito menos aceitei convite de alguém que fosse seu amigo!
- Que?! Que amigo meu deu em cima de você?!
- Não interessa! Agora que já tá com ela, faça bom proveito! – peguei Adriana e joguei em cima dele. Ela quis partir pra cima de mim, mas ele segurou. Beto, um “amigo” dele que tava lá querendo se dar bem, me pegou e me tirou de lá
- Me solta!! – eu gritei, mas ele continuou me segurando e falando bem manso comigo.
- Lessandra, vem comigo, cê não tá em condições de ficar aqui assim.
Mesmo resistindo acabei aceitando o cuidado do Beto comigo e fui embora com ele, que aliás foi amável demais comigo e...seria melhor que não tivesse sido tanto. Paramos num bar próximo e ele teve muita paciência, pois eu tava meio tonta, de pileque.
- Toma este café. – ele ofereceu com jeito, me olhando bem nos olhos.
- Não quero porcaria de café nenhum! – gritei com raiva, mas Beto continuou com paciência.
- Lessandra, você sempre disse que não queria um compromisso sério com o Allan, por que essa bronca?
- Minha bronca é pela mentira! Se ele não tava mais a fim, que jogasse aberto!
- Lessandra, por favor, toma o café. – Beto empurrou a xícara pra perto de mim e eu acabei aceitando.
- Hum...tá amargo! – reclamei.
- Precisa ser, pra passar a bebedeira. – Beto argumentou
Virei de uma vez só o café pra me ver livre. Fiz careta, até. Beto ficou calmo com o olhar fixo em mim.
- Desculpe o que eu vou perguntar, não leve a mal, mas cê sempre foi fiel? Nunca saiu com outro mesmo?
- Fui! Sempre fui sincera e se tivesse atração por outro e quisesse terminar com ele, eu diria!
- Mas, seja sincera, você nem sequer olhou pra outro?
Fiz uma pausa, abaixei a cabeça, depois olhei também fixo pro Beto, assim como ele olhava pra mim e respondi bem firme:
- Eu olhei pra outros, sim. Lá na academia o que não falta é homem bonito, mas eu gostava da companhia dele e mesmo atraída por outros, nunca deixei que crescesse algum sentimento em mim e sempre rejeitei cantadas, convites, que não faltaram e não foram poucos.
- Tá, mas agora pensa que cê tá livre pra partir pra outra, ou melhor, pra outro.
O olhar do Beto ficava cada vez mais penetrante, sedutor, as palavras ditas com um jeito manso, envolvente e assim, naquela mesma madrugada, botei em prática o dito popular: “Rei morto, rei posto!” Beto passava a ser naquele momento o meu rei e durante um tempo eu me sentiria uma rainha.

domingo, 1 de novembro de 2009

CAPÍTULO XII

CRESCIMENTO – BRENDA
Como é bom trabalhar, ter noções de responsabilidade cedo e conquistar uma clientela sempre fiel. Muitas coisas me atraíam na Penha. As festas, mas achava um absurdo aquela história de subir as escadas de joelhos. Algo me dizia que não era necessário isso pra se chegar a Deus. Também achava outras coisas exagero e via gente sem compromisso, fazendo coisas que eu nunca faria, enchendo a cara em noitadas. Apesar de ser um bairro calmo, eu via isso lá e me incomodava tanto quanto em Ipanema, onde eu via isso muito mais. A diferença era que eu morava antes em prédio e tudo era mais escondido. Lá a gente não saía até muito tarde, só com colegas de carro e quando a Alessandra ia mais longe, nem meus pais nem os da Carla permitiam que a gente também fosse. Acho que devido ao meu modo mais pacato de vida, dona Maria, a vizinha da casa em frente uma vez me convidou:
- Brenda, você gostaria de me fazer companhia indo comigo à minha igreja aqui perto?
- A senhora vai de manhã ou à noite?
- Vou domingo de manhã.
- Eu aceito, só tenho que pedir aos meus pais.
Falei com meus pais e eles aceitaram com algumas reservas, mais pra agradar dona Maria que era uma cliente assídua da loja.
Fui com dona Maria, chegamos um pouco antes do início do culto, ela foi me apresentando, algumas pessoas eu já conhecia da vizinhança, outras de vista, outras estavam de visita. O culto inicialmente teve músicas de louvor e embora não tenha gostado de todas, lembro que falavam de amor, Jesus. A palavra “ressuscitou” numa delas ficou guardada na minha mente, comecei a pensar na Páscoa. Amo chocolate, mas nunca havia parado pra pensar que esta data festiva tem um sentido muito mais amplo: a ressurreição de Jesus. Quando começou a pregação, o que foi lido me marcou muito: Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:16). Ao final da pregação, o pastor perguntou se alguém queria declarar que Jesus era o seu único salvador. Vi algumas pessoas indo à frente e repetindo uma oração. Quando saímos, dona Maria foi falar com algumas pessoas e voltou com uma Bíblia na mão.
- É sua.
- ‘Brigada, mas meu aniversário já passou.
- Não é preciso dar presentes só em aniversário. Tem uma dedicatória, leia e entenda esta mensagem
A dedicatória dizia:
Minha querida Brenda, agora você poderá conhecer melhor a palavra de Deus lendo tudo o que Ele deixou de presente para nós. Quando abrir, peça a Deus em nome de Jesus que revele através do Espírito Santo sua mensagem. Jesus te ama e eu também. Comece a ler pelo novo testamento que é mais simples de entender pra quem ainda não conhece. Leia todo dia, nem que seja um versículo. “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (João 8 : 32)
Comecei a ler aos poucos a Bíblia começando por Mateus que narra a genealogia de Jesus. Engraçado que eu lia e observava com a pureza de uma aprendiz: “Quantos nomes, tudo isso pra chegar até Jesus.” Queria entender, mas não fiz inicialmente como dona Maria recomendou na sua dedicatória. Embora começasse pelo novo testamento, o que prevaleceu em mim foi a curiosidade. As passagens iniciais sobre o nascimento de Jesus me fizeram rememorar o que já sabia pela tradição de natal, mas algumas coisas eram novas, pois nunca tive a oportunidade de ler capítulos seguidos. Conhecia muito pouco. Fui sentindo gosto por ler a Bíblia e comecei pelos pedacinhos mastigáveis, mas, para digerir o verdadeiro conteúdo não foi imediato. Fui me alimentando aos poucos, tomando o meu leitinho lendo em casa e indo com dona Maria aos cultos. O pessoal era muito simpático e era interessante estar aprendendo a Bíblia de um modo diferente do que os livros de escola que a gente tem que seguir aquela unidade e passar pra seguinte. Era mais dinâmico aprender ouvindo pregações acompanhando na igreja passagens do antigo e novo testamento lá e lendo só o novo em casa. Mas como sempre fui muito curiosa, quando via escrito no rodapé passagens do antigo testamento que complementavam o novo, lá ia eu passeando pela Bíblia. Comecei inconscientemente a estudar as correlações entre o novo e o antigo testamento. Um dia, ouvi meu pai comentar com minha mãe:
- Essa menina agora fica com a cara enterrada na Bíblia, até pro trabalho leva e fica lendo quando não tem movimento.
- É curiosidade. – minha mãe argumentava
- Acho esses crentes muito exagerados. – meu pai criticava
- Até que a dona Maria não é tanto. Na igreja dela o pessoal não tem aqueles hábitos de saia até o pé, homens engravatados. – minha mãe observava
- É, mas não sei se isso é uma boa influência pra Brenda. – meu pai insistia
- Luís, mal não pode fazer a ela. Eu vejo as pessoas daqui da vizinhança que vão, são rapazes e moças tão bonzinhos, quietos, muito diferentes dessa garotada que só fica falando bobagem, saindo de noite e voltando de manhã de cara cheia.
- É, mas também têm uma vida muito de casa pra igreja, da igreja pra casa, do trabalho pra igreja. Também se precisa aproveitar a vida.
- A Brenda ao modo dela aproveita. Ela gostava mais de sair com a Carla e a Alessandra. Agora estão longe, ela tem menos amigos e tá gostando de trabalhar na loja, cada um é de um jeito, independente de estar ou não numa igreja.
Continuei aceitando convites de dona Maria pra ir à igreja e meu pai embora olhasse com um “rabo de olho” pra mim quando ela passava na loja e convidava, não falava nada, pois ela era uma cliente assídua e sempre muito simpática. Achei interessante que uma das vezes que foi lá me convidar falou pro meu pai:
- Seu Luís, Deus vai dar muita prosperidade pra sua família, pro seu primo que é seu sócio, o senhor vai ver. Esta loja vai ter filial.
Meu pai sorriu como correspondendo uma gentileza, mas parecendo discrente, pois pensou em todas as dificuldades para manter uma loja, quanto mais outra. Qual não foi minha surpresa quando o primo Otávio chegou lá dias depois todo animado dizendo:
- Luís, vou abrir uma filial em Madureira, tá praticamente certo, só preciso fechar com o proprietário. Desta loja agora você cuida, vou ter a ajuda da Marina, - Marina é mulher de Otávio – e assim que abrir, vou ficar direto lá.
Aquilo me impulsionou ainda mais a ir pra igreja. Lembrei de uma passagem bíblica que havia lido: E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. (I Coríntios 12 : 10). No domingo, fui novamente à igreja e mais uma vez a palavra me marcou: Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. (I Coríntios 3 : 6 - 7)
Comecei a me sentir como uma plantinha que precisa ser regada e cada vez mais que ia à igreja e lia em casa ou no trabalho ou em qualquer lugar que levasse a Bíblia sentia que estava havendo em mim este crescimento.

CAPÍTULO XI

UMA NOVA ETAPA – CARLA
Dizem que agosto é mês de desgosto, mas pra mim, dava gosto iniciar aquela nova etapa na minha vida. Curiosamente, não houve trote. Eu fiquei receosa, pois sabia dos resultados de muitos, inclusive um que me contaram: puxaram a cadeira de um rapaz e ele até achou graça, mas não conseguiu mais se levantar e acho que até ficou paralítico. Que horror! Dentre outros que comentaram, os mais habituais eram cortar cabelo. Acho que o pessoal pensava mais em começar logo e deixar essas criancices de lado. Aquele agosto começava quente, teve um dia que até vi cupins na sala de aula.
Na academia, eu ia aprendendo e praticando tanto quanto na faculdade. Tinha um horário à parte em que eu fazia ginástica lá, quando não havia muito movimento. Um dia estava eu fazendo ginástica e reparei que alguém estava conversando com o chefe seu Arnaldo e não tirava os olhos de mim. Fiquei na minha, continuando a olhar pro que estava fazendo. Noutras vezes na rua, nos meus dias de folga, andava de bicicleta e o cara tava lá passando e sempre olhando pra mim, ou quando eu andava pela rua e era difícil não olhar, mesmo que eu desviasse o olhar rapidamente, mas era um reflexo. A gente sente que alguém tá olhando e olha.
Como seu Arnaldo era muito boa gente e enturmava o pessoal, num domingo daqueles de sol, convidou funcionários e amigos prum churrasco na casa dele, com direito a banho de piscina. Eu amei, mas senti muita falta da Brenda e da Alessandra. Lembrei de tantas manhãs de sol que a gente curtia na praia.
Na reunião do churrasco do seu Arnaldo, quem também estava lá? O cara que não tirava mais uma vez os olhos de mim, Marcos, que neste dia estava com a mulher Helena e os três filhos: a mais velha Marion, que tinha 13 anos, a do meio, Marcele, de 10 e o menor, Marquinho, de 5. Marcos era produtor e fazia eventos na academia. Os shows de artistas mais conhecidos e daqueles que começavam e ainda não tinham maiores oportunidades. Cara pintoso, cabelos castanhos claros estatura mediana, na época tinha 33 anos e nem parecia ser pai, aparentava uns 25 anos.
Comecei a ficar sem graça, pois a mulher do Marcos era super simpática, conversava com todos, inclusive comigo. Eu a ouvi comentar com o Marcos que me achou bonita, com um corpo escultural. Eu poderia ter um corpo melhor do que o dela que já tinha três filhos, e por que eu malhava - e ainda malho – muito, mas ela era linda. Olhos verdes, cabelos castanho escuros, pele clara, parecia um marfim. Ela comentava sobre mim com o Marcos e ele ficava quieto, a cada comentário, só falava: “É...” ele era sonso e ela ou era ingênua ou se fazia disto pra viver. Pior é que ele me chamou a atenção também. Eu tive que reprimir o desejo. Fui educada pra casar, embora meus pais tivessem sido sempre rigorosos, eu tava me soltando e como até então não havia dado motivo pra nenhuma desconfiança, já tinha 18 anos e eles já não tinham comigo as mesmas preocupações. Eles davam as recomendações normais de todos os pais. Pediam pra avisar se eu ia demorar, pra não chegar muito tarde. Naquele dia eu balancei. Foi muito difícil esconder que reparava a cada olhada do Marcos, mas acho que nós mulheres somos sempre mais discretas. Os homens têm aquela coisa de macho, orgulho, deixam perceber que estão de olho em alguém pois querem se mostrar. Outros homens que estavam lá reparavam as olhadas do Marcos e embora eu continuasse na minha, quando foi escurecendo dei um jeito de cair fora, mas ele não me saiu do pensamento. A imagem dele me perseguiu. Nem sempre tudo começa bem na vida da gente e a minha maior atração por um homem começou assim.
Naquela mesma noite estava eu na rua, tudo escuro, quando de repente alguém apareceu e me agarrou à força. Era o Marcos. Eu gritei:
- Nãaaaaaaaaaao!!!
Depois deste grito, estava eu sentada na cama. Minha mãe veio correndo:
- Carla, minha filha, o que foi?
- Desculpe mãe, eu tava tendo um pesadelo - respondi ofegante, o coração batendo acelerado.
- Filha, que susto...
Meu pai também entrou no quarto.
- Tava sonhando? – ele perguntou
- Não, pai, “pesadelando,” como diz a Brenda.
- Pôxa, que pesadelo, hein? – meu pai disse
- É, desculpe. Não queria acordar ninguém, mas o que eu podia fazer?
- Vou pegar água pra você, filhinha, fica aí que eu já volto. – minha mãe ofereceu
Bebi a água, minha mãe ficou mais um pouco comigo e eu voltei a dormir. Mas quem disse que foi um sono tão tranquilo? Continuei a sonhar com o Marcos.
No dia seguinte continuei minha rotina trabalhando, fazendo minha ginástica e mais uma vez com o Marcos aparecendo lá e me olhando com aqueles olhos pequenos, mas sedutores. Saí pra faculdade e quem eu vejo dentro de um carro bem na calçada pertinho da porta da academia? Nem preciso dizer. Por educação cumprimentei:
- Oi.
- Oi, você vai pra longe?
- Vou pro Centro.
- Entra aqui que eu levo.
- Não, obrigada.
- Aceita, menina ele vai pra lá. – seu Arnaldo que tava voltando reforçou o convite.
Eu me senti quase forçada a aceitar, mas no íntimo, acho que esperava que ele fizesse alguma coisa além de me olhar tanto. Quando entrei no carro, senti os olhares de cumplicidade entre ele e seu Arnaldo, os sinais de positivo com as mãos, a malícia própria entre os homens. No caminho ele puxou conversa, disse que tinha idéias de eventos, que estava arrumando patrocinadores. Eu tentei ser simpática, mas tava com medo. Aquele pesadelo parecia tão profético. Lá estava eu no carro do Marcos, me sentindo agarrada por ele. Quando o assunto é conquistar uma mulher, a maioria dos homens se une. Seu Arnaldo então, sempre estava “agradando” principalmente as clientes. Um cara com quase 50 anos, casado como o Marcos, mas que mantinha como todos os outros sua pose de macho. Minhas convicções não eram as mesmas da Brenda, que achava que o momento certo era o casamento. Os pais dela eram bem mais liberais do que os meus, mas ela pensava assim pela própria cabeça. Fez falta um conselho da minha amiga. Eu nem sei dizer o que senti, mas estava me deixando levar pela emoção. Não rolou nada naquela carona. Marcos puxou conversa e respondi com monossílabos, poucas palavras. Quando cheguei à faculdade, desci do carro, agradeci e fiquei aliviada. Mas não parou por aí. Marcos continuava a ser cada vez mais freqüente na academia. Um dia, seu Arnaldo falou:
- Carla, você é a pessoa indicada pra propaganda da nossa academia.
- Eu?!
- É. Vamos lançar propagandas nas revistas. Você vai aparecer como nossa garota propaganda.
Eu pensei logo: “É muita areia pro meu caminhão!” Mas o sentimento de vaidade falou mais alto e embora hesitante a princípio, acabei aceitando e também foi fácil convencer meus pais, pois como eu só tinha 18 anos tinha que ter permissão deles. Comecei a fazer fotos pra propaganda pra academia que estava se expandindo. Tirei fotos ótimas, quase sem retoque, quase naturais. Apareci em Outdoor com uma das fotos que fiz e depois fui chamada pra fotografar pra matérias de roupas pra esporte. Meu ego subiu 10 metros, fiquei deslumbrada comigo mesma. Seu Arnaldo começou a me convidar pra mais reuniões na casa dele e em todas estavam o Marcos com a mulher e os filhos, o que me deixava mais sem graça. Até que um dia, não os vi juntos numa destas reuniões, nem nos eventos que tinham na academia. Numa manhã de sábado, vi Helena com os filhos passando pela porta da academia.
- Oi! – ela cumprimentou-me sorridente e eu expressei um meio sorriso, sem graça
- Oi, tudo bem?
- Tudo bem.
- Não foram na última reunião do seu Arnaldo?
- Não querida, isso não é mais pra mim.
- Como assim?
- É que eu tô freqüentando uma igreja aqui perto e não tenho mais prazer nestes ambientes.
- Mas não tem nada demais. – eu argumentei
- Tá querida, mas eu prefiro estar mais com O Senhor agora. Nestas reuniões tem gente que bebe, oferece pro Marcos e pra gente não brigar é melhor não ir e nem levar as crianças.
- Bem...cada um sabe de si, até onde vão seus limites.
- Pois é meu bem. Eu já disse que acho você muito bonita?
- Que é isso...você é que é linda.
- Eu já tenho uns quilômetros rodados, querida. Você tá na flor da idade, com tudo em cima, fazendo sucesso em propagandas pra academia. Desejo sucesso pra você, mas juízo, também.
- ‘Brigada... – fiquei mais sem graça ainda com tanta gentileza da parte dela
- Bem, tô em cima da hora. Toma aqui um folheto da igreja quando quiser ir.
- ‘Brigada... – aceitei com um meio sorriso
- Jesus te ama, minha linda! Tchau!
- Tchau...
Fiquei sensibilizada com tanta delicadeza dela e ao mesmo tempo com um mal estar por sentir uma atração irresistível pelo Marcos. Depois que a vi cruzar a esquina, pensei alto, no que ela falou, que Jesus me amava.
- Acho que ele não tá me amando pelos meus maus pensamentos.