terça-feira, 3 de novembro de 2009

CAPÍTULO XV

ABRINDO O JOGO – ALESSANDRA
Gostava de sair com o Beto. No início, acho que foi pra me vingar do Allan, pois assim que terminamos, o Beto apareceu e não perdi tempo, aceitei o consolo que ele me ofereceu e assim, valeu a troca. Troca parece um termo frio, mas Beto também não era o amor da minha vida. Mesmo assim, continuei a investir naquela relação que me dava mais satisfação. Com o Beto foi muito diferente, pois comecei a considerá-lo namorado mesmo, de andar de mãos dadas, coisa que eu pouco fazia com o Allan. Saíamos juntos e ele foi muito compreensivo quando no churrasco na casa da Brenda eu pedi licença e ficamos ouvindo a Carla. Esperou numa boa, sem reclamar nada. Continuamos a sair muito juntos e num fim de semana, de sábado pra domingo, num barzinho aproveitei pra me abrir com ele.
- Beto, eu quero te dizer uma coisa, ou melhor, muitas coisas. Eu me acho assim...complicada, sabe? Eu tenho um pouco de medo de me amarrar, acho que fiquei traumatizada com a separação dos meus pais. No íntimo eu sentia que eles já não tavam bem, mas queria me enganar, eles se acomodaram e eu também. Pra dizer a verdade, até hoje me sinto culpada pela separação deles.
- Mas que é isso, você não teve culpa...
- Deixa eu terminar, por favor.Eu sei que filhos não seguram um casamento, mas na minha cabeça eu devia ter encontrado um meio de unir os dois. Às vezes eu acho que inconscientemente me castigo como se não merecesse gostar verdadeiramente de alguém ou tivesse medo, resistência. Por isso eu não digo coisas como: te amo, mesmo por que ainda é cedo pra isso. Não acredito em amor à primeira vista e sim em atração. Não sei o que você pensa, mas não tô terminando com você, só senti necessidade de me abrir. A gente já sai junto há algum tempo, ficamos logo íntimos, então tô abrindo o jogo, jamais vou ser falsa sobre o que sinto. Agora, fala alguma coisa, pelo amor de Deus.
Beto me ouvia com atenção, com o olhar fixo e tranquilo. Quando acabei de falar, senti que ele gostou da minha sinceridade. Pegou na minha mãe com carinho e disse:
- É bom botar pra fora o que sente, mas eu também não cobro nem espero nada demais de você. Acho que você é fiel, não tem nenhuma intenção de me enganar, mesmo por que também há muito tempo eu tinha atração por você. Só ficava na minha por causa do Allan.
- Eu sei, mas nem eu nem você perdemos tempo, né?
- Você se sentiu liberada quando viu o Allan com a Dri.
- Fiquei com raiva dos dois, por que ela se fazia de amiga e ele deve ter achado que eu não fosse fiel.
- Você disse que tem medo de gostar verdadeiramente de alguém, mas acho que comigo tá sendo diferente. Ele não ia a todos os lugares com você. Eu já conheci em pouco tempo suas amigas que você tanto falava.
- Eu acho que tô tentando ser diferente.
- Tá conseguindo.
- Eu não tenho muitas expectativas, nem faço planos, mas você é mais companheiro do que o Allan.
- Eu tô de acordo com você. Mas acho que o medo de gostar mais, pra ser mais direto, de amar, não é só seu. Metade da humanidade tá assim. Muita gente tá se separando, namoros não duram, as pessoas por qualquer coisa ‘tão insatisfeitas.
- É. Eu procurava me satisfazer com o Allan, mas ao mesmo tempo não queria sofrer, por isso não soube conquistar nem deixar que ele me conquistasse totalmente. Pensando bem, nós dois fomos os culpados de não ter dado certo.
- Claro, foi sim. Tudo por medo.
- O medo impede o amor.
- É...
- Beto, diz sinceramente sem se sentir pressionado. Você me ama?
- Eu gosto muito de você. Sinceramente. Atração física eu tive desde o primeiro momento. Sei que a gente foi muito rápido e nem pensamos, mas você pra mim é uma pessoa especial. Se não der certo, vamos sempre ser amigos. Não quero nunca magoar você.
- Eu também não quero magoar e nem ser magoada.
- Mais uma coisa temos em comum.
- Você acha que também tem medo de amar?
- Acho que tenho um pouco de cuidado. Apesar de ter sido muito impulsivo no começo, de querer muito você e não ter segurado minha atração, tô me dando a chance de conhecer você melhor e uma coisa já apreciei muito na sua personalidade.
- É? O que? – perguntei sorrindo, satisfeita por ter ouvido o que nunca ouvi de ninguém.
- Você é muito amiga. Eu fiquei muito sensibilizado com o carinho que você dispensou àquela sua amiga, a moreninha, qual é mesmo o nome?
- Carla. Ela é muito importante pra mim, Beto, amo muito aquela menina, ela e a Brenda são pra mim mais do que irmãs, fomos criadas e crescemos sempre juntas, estudando no mesmo colégio. Ela tava com um problema que por um imenso respeito por ela não devo falar, mas fico mais triste do que se fosse comigo. Consegui manter a calma pra dar força pra ela, porque sei que ela faria o mesmo por mim, mas cê mesmo foi testemunha de como voltei chateada, triste, pensando como posso ajudar a Carlinha. Minha vontade era de ter ficado com ela abraçada, botar até no meu colo pra que ela deixasse aquela cascata de lágrimas jorrar inteira até secar, até ter certeza de que toda aquela dor tinha passado. – derramei lágrimas por Carla e Beto as colheu com o dedo indicador, acariciou meu rosto.
- Não fica triste, Lessandra, têm coisas que não tem jeito, as pessoas têm que passar por dores mesmo. Sorte dela ter amigas tão fiéis como vocês.
- Eu sei...mas ela tá sofrendo...tadinha.... Tô em falta com ela. Fico aqui falando dos meus problemas que não são piores do que os dela. Eu vou convidar minha amiguinha pra ficar um fim de semana comigo, ela precisa mudar de ambiente, curtir a praia de Ipa. Pode não resolver, mas quero fazer tudo pra suavizar a dor dela.
- Assim é que a gente se fortalece, Lessandra. Lembrando dos outros. O ser humano não nasceu pra viver só.
- Engraçado, como são as coisas. Anos mais tarde tomei conhecimento desta passagem: “E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2 : 18 - a), aí me veio à mente o que Beto havia dito naquele dia. Pensei na profundidade disso e como o Beto foi usado por Deus sem saber. Cheguei à conclusão que eu tinha uma raiz de amor muito grande em mim que eu mesma desconhecia. Minhas amigas queridas, Brenda e Carla, minhas almas gêmeas. Eu, ser humano imperfeito como todos, tive muitas falhas, inclusive com essas maravilhosas pessoas com quem sempre troquei confidencias, que me deram apoio e eu tentei sempre retribuir. Nossa amizade sempre foi tão especial, que não havia pessoas por quem eu pudesse sofrer mais. Se eu errasse com elas, sentia profundamente as conseqüências do erro. Fui injusta com elas também, mas aprendi com elas, sofri com elas, chorei com elas, sorri com elas, errei e acertei com elas.

12 comentários:

  1. A amizade é assim mesmo: aprender, sofrer, chorar, sorrir, errar, respeitar...
    Quando a amizade consegue resistir a tudo isso, é realmente verdadeira e duradoura.
    A Alessandra, a Carla e a Brenda têm essa cumplicidade.
    Ansiosa pelo próximo!
    Graça e Paz!

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  2. Amém! Cada vez mais o objetivo de mostrar o que é verdadeira amizade tem sido alcançado e os comentários dos seguidores são indispensáveis. Que outros possam ler e refletir sobre o sentido real da amizade.

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  3. Sou imensamente grata por ter uma amiga assim. Apesar de sermos totalmente diferentes, nós nos amamos tanto. E nem eu aqui no Rio e ela lá em Sampa, a distância entre os estados não distância a nossa amizade. Continuamos como na infência e na adolescência, chorando, rindo, sofrendo e sendo felizes, tudo isso juntas, unidas pelo coração!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Como você mesma já comentou, o texto basea-se na realidade, no cotidiano e felizmente na vida, ainda existam mesmo que sejam poucas amizades assim. Uma vez lembro que vi uma moça chorando na casa da minha tia e se dirigindo ao banheiro pra lavar o rosto. Perguntei à uma senhora: "Que foi?" ela respondeu: "Ela tá emocionada" eu dise: "Que bom que ainda existe gente assim".Ela disse: "É meu filho, não tá fácil." Já naquela época. A emoção dela foi por causa de um nenem, primo meu de 2º grau que ela pegou no colo. Quando ela voltou do banheiro, a senhora falou pra ela o que eu observei sobre a sensibilidade dela. Ela comentou sobre a nenem que teve, agora uma moça de 24 anos, que não estava lá. Ela vivia a emoção de ser mãe.Hoje tem duas filhas. É bonito ver isso, mas é uma das raras e emocionantes histórias da vida. Postem suas experiências também. São fontes de inspiração. (corrigido)

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  6. Que bom que a Alessandra ta se abrindo...
    Ela merece se dar essa chance! ^^
    E pelo que eu to vendo, o Beto é legal...

    Sou muito ebençoada por ter uma amizade assim, como a das três! ^^

    Bj... Fica na paz!

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  7. P.S. Há um erro no texto: Beto me ouvia com atenção, com o olhar fixo e tranquilo. Quando acabei de falar, senti que ele gostou da minha sinceridade. Pegou na minha mão com carinho e disse:

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  8. saiu escrito minha mãe, desculpem a falha

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  9. a preciosidade de ser ter amigos assim!
    fiquei emocionada com a declaração sincera da Alessandra para o Beto .. e a forma como ela falou da amiga! :)

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  10. É lindo ver esse sentimento de amizade.
    Ainda bem que posso contar com minhas amigas fiéis de sempre não importa a distancia elas sempre estão guardadas no meu coração.

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  11. emocionante... passando pro próximo...

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  12. Que lindo quando ela fala sobre a amizade, e o sentimento forte que tem pelas duas amigas. Uma coisa um pouco rara hoje.

    Gostei do papo aberto da Alessandra e o Beto. Parece que as coisas estão amadurecendo...

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