quinta-feira, 19 de novembro de 2009

CAPÍTULO XXVII

REVIVENDO O PASSADO – ALESSANDRA
Domingo levei Carla à praia. Consegui vê-la sorrir um pouco e isso foi bom. Não demoramos muito, o sol tava muito forte, ela ficou tonta. Tive medo que passasse mal. Eu não tinha experiência com gravidez, mas pelo que eu conhecia, ela estava com fortes sintomas de uma. Ao chegar em casa, tivemos uma grata surpresa: Brenda tava lá, esperando a gente. Carla abraçou-se com ela e eu também, mas Carla demorou mais no abraço, chorou, tava muito sensível. Pediu perdão à Brenda, pois tava muito envergonhada de ter falado com ela daquele jeito ao telefone. Ela sorriu pra ela e disse que não pensasse mais naquilo. Carla falou de seus sintomas de gravidez pra Brenda que a apoiou quando disse que ia ter o neném. Eu continuava preocupada com a reação dos pais dela, pois ela não poderia esconder muito mais tempo deles. Mesmo antes que a barriga crescesse, os enjôos, a falta dos absorventes já seriam sinais. Estávamos nós, lá juntas, revivendo o passado, como nos bons tempos. Conversamos sobre nós, como estávamos desde que nos separamos depois de tantos anos tendo compartilhado tantas coisas juntas. Foi um festival de risos e lágrimas. Lembramos nossos antigos aniversários, vimos fotos da gente pequenininha, fotos que eu tenho delas até hoje com dedicatórias. Eu tava sozinha naquele período, mas feliz por estar com a Brenda e a Carla. Precisava resgatar toda a essência daquela amizade que não poderia se perder por causa da distância. Nossas vidas eram unidas demais pra gente viver tanto tempo separadas. Antes que escurecesse eu levei as duas pra casa. No caminho a gente foi conversando, apreciando cada lugar por onde passava. Brenda ficou preocupada que eu gastasse muita gasolina.
- Pra ficar mais tempo com vocês, eu paro no posto e encho mais o tanque! – respondi sem pensar.
Eu tava amando estar com elas. Parecia uma eternidade aquele tempo que a gente ficava sem se ver. Brenda falou da igreja, pareceu estar gostando mesmo e eu senti que a vida dela já tinha muito a ver com toda aquela visão de igreja evangélica. O lance de esperar o casamento pra se entregar ao homem. Ela disse que não tava nem com pressa de ter ninguém.
- Não teve nenhum flerte na igreja? – perguntei, mas sem malícia.
- Não – ela respondeu – Os rapazes lá são muito diferentes. Lá tem grupo de jovens, tô começando a participar.
- Você vai conhecer alguém que goste de você. – Carla falou como quem desejasse à Brenda mais sorte do que ela teve.
- Você também ainda vai saber o que é isso, Carla. – Brenda falou sorrindo pra ela, com sincero desejo
Não tocamos mais no assunto da provável gravidez de Carla até que Brenda ficasse em casa.
Aquele dia foi o “show”, mesmo com a tensão da Carla. Brenda parecia irradiar alegria, a gente sentia uma paz vinda dela, uma coisa tão doce, tão natural. Ela tava diferente, mas pra melhor. Não digo que a Carla estivesse diferente pra pior, mas tava muito sofrida. Eu e Brenda continuávamos preocupadas, pensando em como ajudar. Eu até me perguntei: “Será que os pais da Carla botam ela pra fora de casa se ela estiver grávida?” Mas procurei não pensar no pior e dar apoio pra ela, pois era o que ela precisava.
Já tava escuro quando deixei Brenda em casa e ela despediu-se de mim e depois de Carla olhando com o maior amor pra ela, bem nos olhos e dizendo:
- Conta comigo sempre. Meu coração tá no seu.
Carla chorou abraçada a ela e nem conseguiu dizer nada. Brenda olhou pra ela sorrindo, deu um beijo no rosto dela e acariciou seus cabelos como se fosse uma criança. Carla tava muito tocada com o carinho de Brenda. Nós ainda conversamos mais um pouco.
- Cê não quer parar em algum lugar pra comer, Carla?
- Nem posso ouvir falar em comida.
- Não precisa de alguma coisa pra confortar o estômago?
- Eu ainda tenho que descobrir se estou confortando alguém aqui dentro.
- Você parece preocupada, mas por outro lado quer o filho.
- Claro que quero. É um pedacinho do Marcos em mim. Eu errei, mas pelo menos fica uma compensação.
- Ele não tem dado notícias, né?
- Eu perguntei pro seu Arnaldo. Ele disse que ele tá com uns problemas. Não sei se são com a mulher dele ou com os filhos.
- Vocês estiveram mais tempo juntos, ele antes já não parava em casa. Ela pode estar desconfiada. Pode até não cogitar que seja você, mas que ele tem outra.
- Não tenho mais visto ela por perto da academia. Nem teria cara pra olhar pra ela. Sempre falou tão bem comigo. Por que as coisas acontecem assim?
- Calma, Carla, não começa a se torturar.
- Mas Lessandra, eu tô pagando pelo meu erro. Se estiver mesmo grávida, quero ter o filho, mas eu errei. Ele nunca disse que largaria a mulher. Eu tinha que ter fugido, sumido. Eu fui culpada. Ele soube como me seduzir, me atrair e eu fui fraca. Marcos foi esperto e agora eu sei que tô correndo o risco de ficar sem ele.
- Você pensa em contar pra ele se descobrir que tá grávida?
- Eu não sei...ele pode até querer que eu tire, tanto homem age assim quando descobre que a amante tá grávida.
- Será que ele é tão frio assim?
- Lessandra, o seu Arnaldo tem um filho com outra mulher e esse filho é menor que os dele com a esposa. Neste caso foi diferente, mas não são todos assim. O que eu posso esperar é que o Marcos seja como a maioria dos homens. Ele tem suas diferenças, mas tem características comuns a todos os outros. Ele tinha uns olhares de cumplicidade com seu Arnaldo. Neste ponto ele é como todos. Por um lado tô achando melhor este sumiço, embora eu esteja sofrendo, tô tendo tempo pra pensar.
- Então nem sabe o que vai falar com ele?
- Ainda não, vai depender do que eu souber quando ele resolver aparecer. Mas ele deve estar mesmo com algum problema sério, se não, não sumiria tanto tempo.
- Como você em poucos meses se envolveu tanto com aquele homem.
- É. Passamos momentos bons, mas isso foi só ilusão. Talvez eu alimentasse a esperança de ficar com ele, mas não tenho nenhum direito. Bem feito pra mim.
- Não precisa se auto-flagelar também!
- Lessandra, a Brenda tá certa. Ela é a certinha, mas tá feliz.
- Você tem razão. A gente alimenta muita ilusão mesmo. Tô sozinha um tempo por causa disso. Brenda parece mesmo feliz.
- Os sentimentos da gente são intensos demais. A gente não pensou. Nem eu pra me deixar dominar pelo Marcos e você pela sua carência e seu medo dos relacionamentos. Não soubemos esperar.
- Eu tô tentando ser diferente.
- Eu não tô conseguindo ser. Tô assim, tão amargurada com tudo isso...
Carla começou a chorar. Estávamos algumas quadras antes da casa dela. Parei o carro e a abracei.
- Ah, minha linda, não fica assim. A gente até que teve um dia bom com a Brenda, ela foi tão carinhosa contigo. Você tem a gente, meu amor. Não sofre assim. Carla os erros da gente servem de experiência pra gente não repetir mais tarde.
- Mas eu fui muito longe.
- Carlinha, a gente tá perto da sua casa, você precisa se acalmar. Chora o que tiver que chorar, eu deixo você lá, fico um pouco e você procura não remoer mais isso tudo na cabecinha.
- Eu vou tentar.
Deixei Carla em casa e ainda fiquei um pouco. Procurei conversar também com ela pra que tirasse um pouco os problemas da cabeça. Até aquele dia, seus pais ainda não haviam percebido nada. Mas a Jacyra chegou a comentar que achava muito calada e que estranhava muito ela não se enturmar mais, não namorar, não se chegar aos rapazes da idade dela. Disse que achou um exagero aquela maratona de eventos que ela participou naqueles primeiros meses do ano, período aliás que deve ter resultado naquela provável gravidez. Pediu-me que a aconselhasse. Disse que estivemos com a Brenda e ela perguntou dela e eu disse as novidades.
- Aquela sim tem juízo! – Jacyra elogiou Brenda. – Minha filha quer fazer tudo ao mesmo tempo, não sossega!
Despedi-me de Carla dizendo:
- Te cuida, hein? E dá notícias.
Achei Carla menos tensa depois de me despedir, mas minhas preocupações continuavam. Eu torcia que ela não estivesse grávida, que fosse um rebate falso.

11 comentários:

  1. Novamente a primeira a postar...uma honra!
    Eu sabia que a Brenda ia apoiar a Carla, ela é muito compreensiva e sensivel, e como eu disse a uns dias atrás, ela está se tornando mais sábia agora que aceitou a Jesus.Bem, e a Carla realmente está começando a colher o que plantou.Mesmo se não estiver mesmo grávida, já está angustiada o bastante pelo erro que cometeu, tá sofrendo muito.
    Espero com curiosidade pelos próximos capítulos!

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  2. Primeiro: a Alessandra e a Carla já estão notando os sinais do novo nascimento de Brenda, já estão sentindo o doce perfume de Jesus. Nossas atitudes de vida são um dos melhores testemunhos para evangelizar, maiores do que as
    palavras, em alguns casos...
    Segundo: o balanço / recordações sobre a trajetória da vida delas, que elas fizeram nessa tarde, serviu para reforçar, uni-las mais ainda...

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  3. Terceiro: a Carla está bem consciente da sua situação e das opções / decisões que terá que tomar em breve. O positivo, é que ela não quer abortar, e já manifesta carinho pelo bebê...
    Quarto: a próxima narrativa, deve ser da Brenda?
    Se for, espero que através da Brenda, a gente possa ter notícias da gradidez da Carla...
    E o SUSPENSE continua...

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  4. Como todos sabem as narrativas são alternadas e com certeza a próxima não será da Alessandra, mas não vou dizer de quem será para manter o suspense.

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  5. Vinícius, passei rapidinho por aqui, para te dizer que a história está muito boa.
    Abraços e a paz!

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  6. Que bom que deu um tempinho pra passar sua falta estava sendo sentida por aqui. Momentos emocionantes aguardam os leitores.

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  7. gostei muito desse cap [Alessandra é uma fofa! =Fato!] vai ser mesmo uma bênção se ela aceitar a Jesus.. Quero uma amiga dessas.. meldels!

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  8. Que bom ver as amigas todas juntas. Uma consolando a outra.

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  9. Lindo essa fidelidade entre elas. Mto bom o "exemplo" da Carla em assumir a gravidez, sendo ela linda e já com uma carreira engrenada.

    Está ficando cd vez melhor... fique na paz.

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  10. Tão fofo a amizade e o amor entre elas.

    Legal que elas tão percebendo como a Brenda está diferente, mais feliz, mais iluminada...

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