quinta-feira, 5 de novembro de 2009

CAPÍTULO XX

LOUCURAS DE INÍCIO DE ANO – CARLA
Cheguei ao prédio de Alessandra contando com que àquela altura as duas já tivessem telefonado pra polícia, necrotério, hospitais e qualquer outra coisa que pudesse ocorrer. Minha roupa branca estava manchada, o laço de fita revirado ao redor da cabeça e me sentia cansada e anestesiada. Eu não acreditava no que havia acontecido. Nunca pensei que pudesse ser assim. Nem sei se era mais difícil acreditar no que fiz ou contar às minhas amigas. Pela primeira vez na minha vida me senti tão estranha, com tantas sensações emaranhadas. Pensava em tudo enquanto ia subindo no elevador. Toquei a campainha preparada pra levar uma bronca. Brenda abriu a porta e começou o sermão:
- Bonito hein, dona Carla! Nós aqui apavoradas enquanto a senhora devia estar com um mascarado!
- Cumé que cês sabem?! – fiquei estarrecida, pois quando aconteceu não pensei que elas tivessem visto.
- Nós perguntamos a um daqueles amigos malucos do Beto e ele disse que viu um mascarado te agarrando, levando você de lá.
- Ai, gente... – sentei e comecei a chorar. Além da angústia também senti um alívio, pois alguém já havia me poupado da primeira parte da história.
- Carla, que foi que aconteceu? Quem era o mascarado? – Brenda perguntou séria
- Eu vi aquele cara duas vezes lá em baixo perto do prédio. – Alessandra falou
- Você viu. Será que preciso dizer quem era ou você ainda não deduziu? – perguntei esperando que ela dissesse quem era.
- Não...não me diga que era o...- Alessandra ficou quase sem fala
- Você já respondeu. – olhei pra ela bem séria
- Mas Carla, como pode? – Alessandra ficou abismada com a persistência do Marcos.
- Ele conseguiu saber o seu endereço usando uma terceira pessoa pra passar pra ele.
- Não foi o seu patrão, né? – Brenda indagou
- Não, foi outra pessoa. Na hora nem me ocorreu, mas agora já imagino quem possa ter sido. Acho que foi uma garota que perguntou onde eu ia passar o ano novo, numa conversa assim como quem não quer nada. Lembro que eu comentei e ainda disse perto de onde ficava seu prédio. Daí com essa dica, foi fácil pra ele descobrir. Ele conhece bem a zona sul.
- Carla, que armadilha! – Brenda exclamou
- Podes crer, foi mesmo e eu caí direitinho, muito mais do que eu pensava.
- Mas como foi? – Alessandra perguntou
A cena veio toda à minha lembrança apesar de que eu estava já um pouco alta pela bebida. Contei tudo:
- Eu tava naquela multidão de amigos do Beto, um cara tava dando em cima de mim, mas saí de perto. Foi aí que ele apareceu com aquela máscara e me pegou à força achando que ninguém tava vendo. Eu fiquei assustada, ele me pegava com força e eu acabei indo quase carregada. Ele me levava e fazia um sinal com o dedo pra eu fazer silêncio. Eu gritava:
- Me solta, socorro!
Ele continuava a pedir silêncio sem falar, até me tapou a boca. Quando viu que estávamos longe, tirou a máscara
- Marcos?! – eu gritei de susto – Como você veio parar aqui?! Como soube que ia me encontrar?!
- Não importa. O que importa é que te encontrei e agora e não vou deixar entrar este ano sem ficarmos juntos.
- Você é louco, Marcos! Onde estão seus filhos? Sua mulher?
- Deixei meus filhos na casa de um amigo aqui perto. Minha mulher ficou em casa com a mãe, não tava se sentindo bem e insistiu que eu levasse as crianças pra ver o fim do ano em Copacabana, mas pediu que não entrasse com elas na praia. Ficaram cansados e eu os levei de volta pra casa deste amigo e disse que ia encontrar um pessoal aqui na praia. Felizmente encontrei quem queria.
- Marcos, você não podia se aproveitar disso.
- Minha mulher já tinha dito que não iria e eu consegui descobrir onde você ia passar o fim do ano.
- O que você pretende? Controlar minha vida?
- Não, pretendo ter você em meus braços. Quero você e vou lutar por você.
- Você é obsessivo. Me deixa em paz, por favor!
- Não, não vou deixar você em paz.
- Ele disse isso e me beijou. Um beijo mais intenso do que da última vez. Disse que me amava, que me queria e que não ia me deixar escapar dele. Eu fiquei louca. Ele me levou prum lugar onde ficamos sozinhos e...
- E...? – Brenda quase deduziu
- Carla... – Alessandra percebeu pelo meu olhar
Eu não disse adeus só ao ano. Também aos meus dias de pureza e minhas amigas me conheciam tão bem que um olhar bastava pra dizer tudo.
- Carla, você é louca! – Brenda não conseguiu esconder seu espanto e a decepção que sentiu ao ver minha fraqueza.
- Brenda, pega leve – Alessandra tentou acalmá-la
- Mas como Alessandra? Ela fez a última coisa que deveria ter feito! Isso não vai acabar bem, ela vai sofrer as consequências.
- Gente! – eu levantei chorando, gritando – Eu gosto dele, sou louca por ele! Não suporto mais esconder o que sinto! Aconteceu, sim, não sei se vai acontecer outra vez, mas pelo menos fica a lembrança de que foi com alguém que eu amei! Não programei, sempre disse que queria que fosse com a pessoa certa na hora certa mas é difícil ser coerente! Eu quis, já fiz, agora não tenho como voltar atrás!
Continuei a chorar muito encostada na parede e Alessandra chegou perto de mim e acariciou meus cabelos procurando me acalmar e perguntou:
- Pelo menos vocês se preveniram?
- Eu...há algum tempo já tomo pílula e ele tava prevenido.
- Bom, pelo menos não corre o risco de pegar uma doença ou ficar grávida. – Brenda se tranqüilizou, mas sua voz continuava num tom de decepção.
- Você sempre a certinha! – falei agressiva
- Você deveria se preservar. – Brenda falou com um tom de superioridade. – Quando viu que era ele podia ter gritado, pedido ajuda. Você quis que acontecesse!
- E daí? Eu gosto dele!
- Vamos parar de discutir, gente! – Alessandra interveio – Carla ainda tá vivendo a emoção da coisa, foi difícil pra ela e você tá recriminando. As duas vão acabar se ferindo, vamos parar por aqui!
- Alessandra, eu não vou ser falsa. Já pensou o que vai ser dela daqui pra frente?
- Tá, Brenda. Eu também fico preocupada. Mas agora já aconteceu. Não adianta falar que ela devia ter evitado.
- Alessandra. Desculpa. - eu disse ainda chorando - Eu nem pensei em você. O Beto foi mais uma decepção pra você e eu nem fiquei do seu lado.
- Nós duas ficamos muito mais preocupadas com você. – Alessandra disse trazendo Brenda pelo braço pra perto de mim.
- Eu sei... Eu nunca pensei que ia me deixar envolver assim por alguém. Mas juntou tudo. Eu não gosto de garotões, ele é um homem bem mais velho, mais maduro. O casamento dele não deve estar bem mesmo e acho que tô alimentando uma esperança que ele venha a se separar, apesar de já ter dito a ele antes que não queria destruir um casamento.
- Sua cabeça deve estar uma confusão só. – Alessandra observou
Brenda veio até a mim e disse:
- Eu não quero recriminar você. Mas pensa bem, Carla, que futuro cê vai ter com aquele cara? Num dia de ano novo você, escondida com ele. Se isso vai adiante, você vai estar sempre se escondendo, na agonia da espera que ele deixe a mulher e fique com você. Isso é muito sofrimento. Você vai se prejudicar no trabalho, na faculdade. Vai ter que se contentar sempre com as migalhas que ele oferecer.
Eu chorei mais e me joguei nos braços de Brenda. Ela fez carinho nos meus cabelos enquanto eu falava:
- Eu sei. Foi mais forte do que eu. Ele foi tão insistente, tão determinado que eu cedi. Não tiro ele da cabeça, ainda mais agora. Não sei como vai ser, mas eu amo o Marcos. Não queria que fosse assim, mas é. Pôxa...estraguei o ano novo de vocês... – falei chorando ainda mais apertando Brenda nos meus braços e ela correspondeu continuando a fazer carinho nos meus cabelos. Alessandra se abraçou conosco e disse:
- O réveillon já tava estragado, Carla. Foi melhor ficar preocupada contigo do que pensar no que o Beto e aquela turma esquisita dele tavam fazendo. Esqueci logo quando lembrei de você, amiga. Eu queria fazer tudo agora pra você não sofrer.
- Eu também – Brenda disse.
- Gente... – falei com a voz embargada. – Vamos ser sempre amigas e não deixar que nossos problemas atrapalhem nossa amizade. Eu não posso ficar sem vocês. Mesmo que eu ainda cometa outras loucuras, por favor não virem as costas pra mim. Mesmo que eu não goste de ouvir, falem o que vocês pensam, mesmo que eu não concorde, mesmo que eu quebre a cara. Quem sabe mais tarde o que a Brenda falou não vai servir?
- Eu espero que sirva agora, não quero ver você sofrer. – Brenda acrescentou
Eu fiquei sensibilizada e dei um beijo no rosto dela.
- Eu te amo Brenda. – eu disse
- Também te amo, Carla. Tenha certeza de que onde estiver, meu coração vai com você.
- E o meu também – Alessandra disse
- Lessandra...- também dei um beijo no rosto de Alessandra que me abraçou mais forte junto com Brenda.

11 comentários:

  1. Quando lí a parte onde Marcos seguia Carla e ela se sentia atraída por ele, ja previa o mais provável... Geralamente é isso mesmo qeu acontece...
    mas a pergunta é: E agora?

    A consciencia, a paixão, ela vai ser mais uma "outra"?
    Marcos vai ser um caso à parte e assumir relacionamento com ela?
    E depois... fará o mesmo, traindo ela com outra?

    E Beto, que desculpa vai arrumar pela atitude cafageste que teve com Alessandra?

    E Brenda, até quando vai ser o esteio dessa amizade? o porto seguro e a cabeça mais madura? Embora esteja num caminho certo, nunca vai escorregar e precisar ela desabafar com as amigas?

    vixe... monte de perguntas hein... rsrsr
    Mas sinal que to muito curioso, e gostando muito da historia...

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  2. É isso aí. Não perca o emocionante próximo capítulo de: VIDAS SEPARADAS.

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  3. Cara, essa foi a "primeira vez" mais triste que eu ja li. =/

    Que terrivel... não foi nem em um lugarzinho legal, tipo, foi escondido!! nossa, to triste por ela... =/

    Mas no fundo eu ja estava esperando por isso...
    (como eu disse antes, quantas(os) Carlas(os) tem por ai com o mesmo problema, né?) =/ [triste]

    Fica na paz!

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  4. Sem poder fazer mais questionamentos (rsrsrs). O Fábio já fez todos (rsrsrs)...
    O que encanta nessa história é a conexão com a vida real. A gente vive a história e as personagens, porque conhecemos outras Alessandras, Carlas e Brendas...
    Vinicius, você está de parabéns, o texto prende a atenção e a história ganha cada vez mais força.
    Graça e Paz!

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  5. É engraçado que já ouvi comentários de gente que leu no papel antes da história ser postada e a opinião sobre a Helena, mulher do Marcos foi que ela estava pedindo pra ser traída com a atitude de não mais acompanhá-lo às reuniões na casa do chefe da Carla.

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  6. P.S. Questão de ponto de vista, mas não justifica a atitude do Marcos.

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  7. Nossa! Eu também estou sem palavras.

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  8. sem palavras tbm... passando pro próximo...

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  9. Nossa!!! Tadinha da Carla, eu imagino a confusão na cabecinha dela... desejo, culpa, não podia, aconteceu, amor, e agora que eu faço, enfim, tantos pensamentos. Que coisa hein! Sabe que fiquei triste, queria que tivesse conseguido resistir, mesmo sabendo que era quase impossível.

    Bem, vou dormir, amanhã continuo, acho q fiquei meio deprê.

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  10. Nossa, nossa, nossa...
    A Carla caiu... Concordo, mesmo que o casamento dele não está bem, não é desculpa para ele fazer o que fez...
    E que confusão ela está vivendo...realmente, se seguir adiante só vai ter restos e migalhas dele.... é uma paixão louca...por que ele também não pensa direito...

    E a amizade das meninas continua forte... E o pedido de Carla para que não ficassem longe dela mesmo que cometa erros e erros... Muito fofo...

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