quarta-feira, 4 de novembro de 2009

CAPÍTULO XVII

RETOMANDO – BRENDA
Depois de um tempo afastada, fui numa noite na 3ª feira com dona Maria à igreja dela. A pregação foi dura. O pastor fez comparações entre Saul e Davi. Achei interessante os significados dos dois nomes; o primeiro quer dizer: pedido por Deus, o segundo: amado de Deus. Fiquei impressionada ao ouvir que Saul mandou matar o filho. O pastor deu ênfase ao egoísmo dele e mais pra frente disse que apesar de Davi ter “pisado na bola” se arrependeu. Lembrei da Carla. Alessandra contou sobre o fim de semana que ela passou lá e que tava preocupada. Eu também fiquei é claro. Apesar da gente se gostar tanto, sempre fomos muito diferentes. Meu ideal era casar, ter filhos. Meus pais pra mim sempre foram um exemplo. Com todas as lutas, tinham um casamento feliz e sei que continuavam se amando num amor maduro, sofrido pelas lutas da vida. Eles sempre estiveram dispostos a recomeçar. Eu também estava. Minha adaptação ao bairro da Penha foi muito mais rápida do que eu pensava. A loja crescia, a filial em Madureira também. Felizmente tudo tava dando certo. O próximo passo seria pra mim no começo do ano seguinte começar a faculdade. Não me arrependi absolutamente por ter trancado. Guardei dinheiro e poderia assim ter o bastante pra comprar livros ou apostilas que precisasse. Na verdade o meu desejo maior ao ir trabalhar na loja era o de retribuir aos meus pais os anos de sacrifício deles por mim. Fiquei com minha alma lavada por isso. Os últimos meses do ano davam-me a certeza de que tudo valeu. Estava pronta pra novas conquistas. Meu pai achava que eu exagerava, queria que eu me divertisse mais e sei que ele pensava que eu tinha um procedimento talvez muito maduro pra minha idade embora eu não deixasse de ser aquela menina sonhadora. Um dia, naquela mesma semana que eu tinha ido outra vez à igreja, ele conversou comigo no horário de almoço.
- Filha, eu queria muito falar com você.
- É pai? Fala.
- Em primeiro lugar queria dar a você os parabéns.
- Meu aniversário já passou. – eu brinquei
- Ah, engraçadinha! Eu quero dar a você os parabéns pelo seu empenho na loja, pela sua criatividade, pela clientela que conquistou.
- Muito obrigada. Mas acho que cê tem mais alguma coisa pra falar, até agora foi a introdução.
- Filha...eu aprecio sua determinação, mas acho que devia aproveitar mais a sua idade.
- Eu aproveito, pai.
- Será mesmo?
- Claro! Eu curto tudo o que faço.
- Mas você quase não se diverte.
- Ah, pai... É que muita coisa mudou, eu tô num outro esquema de vida. Meu trabalho é uma diversão pra mim.
- Mas você vai continuar quando for pra faculdade?
- Eu ajeito o horário, não se preocupa. Você é o meu patrão, mas não vou abusar do fato de ser meu pai
- Vocês jovens querem sempre abraçar o mundo com as pernas. Conciliar as duas coisas é difícil.
- Mas não é impossível. A Carla e a Alessandra conciliam.
- Tá, eu sei, mas é diferente.
- Nem tanto, elas vão se formar em Educação Física, tem pontos em comum com pedagogia.
- Você quer mesmo ser professora?
- Eu ainda vou ter meu colégio, pai.
- Você é tão sonhadora, filha.
- Pai, o sonho tem que permanecer na gente, se não a gente envelhece muito cedo.
- Mas como eu já disse, acho você muito madura.
- Mas não deixei de ser a sua menina. Eu quero crescer ajudando você e a mamãe e continuar sendo uma menina pra crescer com as crianças que vou conhecer, depois crescer pra conhecer quem será meu marido e crescer pra ter meus filhos e continuar a eterna criança que sou, que sempre quer crescer.
- Pôxa, filha... Entendi sua mensagem. A gente tá sempre crescendo, né?
- É, pai. Se a gente achar que já aprendeu tudo, a vida fica muito chata, muito sem graça. É natural que você tenha zelo por mim. A mamãe concorda com você eu sei, mas fica mais na dela. Eu gosto tanto de fazer coisas pra você, ajudar mamãe na cozinha, tirar os sapatos dela e colocar chinelos pra ela descansar quando chega do trabalho. Ajudar a fazer os bolos. Pai, eu nasci pra viver com família e lidar com gente. A vida é mais rica, tem mais beleza assim.
- Pôxa... Você é uma filha de ouro... Me deixa emocionado. Mesmo assim, ouve teu pai, não fica num ritmo acelerado demais quando iniciar a faculdade e antes de reabrir a matrícula, curte. Você há tanto tempo nem tem um namorado.
- Mas vai chegar o momento certo, pai. Por enquanto nem penso nisso. Verdade. Primeiro eu preciso conquistar o que é meu pra depois saber quando como e com quem vou dividir. Uma relação a dois deve ser muito bem pensada e eu só quero namorar tendo a certeza de que é o rapaz certo. Os que eu tive em Ipanema não contaram, não acrescentaram, foram coisa de menina, adolescente. Agora que eu tô entrando na vida adulta quero ter responsabilidade pra tudo, principalmente prum relacionamento sério.
- Filha, qualquer dia eu vou pedir conselhos a você.
- Eu guardo os bons conselhos que tive seus e da mamãe.
- Estava lembrando agora que você estréia como eleitora em breve.
- É mesmo.
- Já sabe em quem vai votar?
- Ainda não. Parece tudo igual. Os debates cansam, a propaganda política é o horário que a gente aproveita pra lavar a louça. Já aproveitei até pra lavar a cozinha. É mais produtivo.
- Você vai votar onde?
- Numa escola aqui perto.
- Vote consciente.
- Nem que seja em branco.
- Assim cê dá voto pra alguém que não queira dar.
- Ah, sei lá! Talvez eu vote no candidato que não seja tão ruim.
Eu continuava indo à igreja e quando meus pais inventavam algum passeio ou outra coisa que me prendesse em casa ou me fizesse acompanhá-los no domingo, ia num dia da semana. Fiquei cada vez mais curiosa sobre a Bíblia e comentei com dona Maria que queria entender melhor algumas passagens, queria ter mais facilidade em manejar a palavra de Deus. Foi aí que no fim de um culto numa 3ª feira ela ofereceu:
- Aqui está um presente pra você, uma chave bíblica pra encontrar com mais facilidade o que quiser saber.
- ‘Brigada, dona Maria! – agradeci abraçando e beijando muito aquela senhora que era tão carinhosa e que regava em mim o crescimento de curiosidade e interesse pela palavra de Deus.
Naquela mesma noite, antes de deitar, a propósito da proximidade das eleições, procurei na chave bíblica a palavra eleitos e chamou-me mais a atenção o que vi assinalado em Isaías 65 : 22: “Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam; porque os dias do meu povo serão como os dias da árvore, e os meus eleitos gozarão das obras das suas mãos.” Refleti sobre isso pensando em como seria bom um governo no qual os dirigentes fizessem boas obras. Eu sempre me considerei apolítica, mas pensava muito no bem estar das pessoas pois tinha a intenção de formar cidadãos conscientes. Desde cedo pensava no próximo, em alertar sobre os enganos da vida às pessoas mais novas ou da minha idade. Por isso sei que pra Alessandra e Carla eu era careta. Elas não eram individualistas, mas agiam mais por impulso, sem pensar muito. Alessandra era a mais impulsiva de nós. Porém, sei que quando convivíamos diariamente eu tinha alguma influência sobre ela, sempre a alertando, ponderando. Carla muitas vezes parecia perdida. Seus pais eram bons, mas às vezes um pouco rigorosos demais. Já os meus davam a medida certa, sempre me senti segura com eles. Mudanças começaram a ocorrer desde que passamos a morar longe uma da outra, mas de uma coisa eu sempre tive certeza: apesar da distância, levei o coração delas comigo. A alegria de cada uma era a minha alegria. A tristeza, a minha tristeza e a vitória, a minha vitória.

13 comentários:

  1. A Brenda sempre me emociona. Hoje eu escrevi um texto para a minha filha, e gostaria tanto que ela me visse como a Brenda vê os seus pais.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Claro que eu sou suspeito pra falar, mas me emocionei muito escrevendo o texto. Espero que emocione a mais seguidores.(corrigido)

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  4. Eu amo demais a Brenda, me identifico com ela.
    Neste capítulo, fica claro a influência da criação que cada uma teve em seus lares, e que ajudou na formação da personalidade de cada uma.
    É na família que começa a vivência da criança, e essa vivência a prepara para a vida.
    Embora os anos da adolescência/juventude sejam difíceis, quando a família é bem estruturada, fica mais fácil essa transição.
    Graça e Paz!

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  5. A Brenda representa nesta história o suporte das outras amigas. Não importa se isso pareça abuso.Ela gosta de servir, de ajudar. Elas podem ir até ela a qualquer momento que ela estará sempre disposta, pronta a oferecer seu amor ágape sem esperar recompensa. O lar estável dela é a sua base.

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  6. A Brenda é uma florzinha linda!!! ^^
    Adoro! =D

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  7. É mais que isto. Uma flor que cresce, floresce e xala seu perfume da amizade.

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  8. Nos meus 57 anos de idade ainda não consegui chegar a ser Brenda, mas com a certeza de querer melhorar a mim mesma, continuo percebendo a importância das citações bíblicas, e o que elas transmitem à nós que lemos o texto.

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  9. [aa] sério! me identifico demais com a Brenda!! na verdade,nunca me achei do tipo muito madura pra minha idade [apesar das pessoas dizerem que sim] .. eu sempre me achei muito consciente..[costumo dizer que, às vezes, a minha consciência parece ter vida própria! pq tem horas que ela simplesmente dita as coisas.. autocracia!] tem gente que diz que isso na verdade é medo.. medo de correr riscos, ou simplesmente fraqueza! [eu digo q eu só sou realista.. minha mae diz q eu sou tão realista que beiro ao pessimismo!] rss

    quero saber mais sobre tudo .. especialmente sobre a Brenda!:)

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  10. Nossa aqui todo mundo se identifica com a Brenda ou chega perto. E comigo não é diferente rsrsrs.
    Gostei disso: "A gente tá sempre crescendo"

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  11. me identifico muito com a Brenda... passando pro próximo

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  12. Como um lar estruturado reflete nos filhos!!! Faz toda a diferença! Muito bom! Brenda está sendo um exemplo muitíssimo positivo.

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  13. Ai esses pais... como é que ele não acha tão bom assim ela ir para igreja? Quantos pais não gostariam que seus filhos também fossem para o culto?
    MAs é a realidade, por mais que não compreenda.

    Legal o papo de pai e filha. Ele percebeu o quanto que sua filha é madura e sabe o que está fazendo, diferente do que pensara...

    Está sendo legal os capítulos... Tocando sempre em assuntos que fazem parte da adolescência e juventude...

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