quarta-feira, 4 de novembro de 2009

CAPÍTULO XIX

ANO NOVO – ALESSANDRA
O ano de1986 chegava ao fim. Ia começar bem o novo ano, pois umas fotos que minha mãe mandou para uma agência de propaganda chamaram muito a atenção e assim fui selecionada como uma das candidatas para o concurso de RAINHA VERÃO 87.
Eu e minhas amigas Brenda e Carla íamos festejar juntas a passagem do ano. Carla chegou ainda cedo, pois trabalhou até o meio dia e pegou logo o trem e em seguida um ônibus que chegava rápido em Ipa. Antes que Brenda chegasse, Carla conversou comigo:
- Tá tudo bem contigo? - perguntei
- É... Mais ou menos.
- Mais mais, ou mais menos? – brinquei. Ela riu
- É...sabe o Marcos?
- Como eu poderia esquecer? O motivo dos seus prantos.
- Pois é. Ele me procurou. Agora deu um tempo, mas não sei, acho que ele pode aparecer quando eu menos espere.
- Ele ofereceu carona outra vez?
- Pior. Foi à faculdade.
Carla relatou o ocorrido no bar perto da faculdade, contou que o Marcos a beijou à força e que o sentimento por ele estava crescendo, embora ela procurasse continuar resistindo.
- Eu fico mais à vontade em falar com você, Lessandra. A Brenda é tão certinha.
- Mas ela não ficaria contra você. Sei que não aprovaria que cê tivesse um caso com o cara, mas não ia te dar as costas.
- Eu sei, mas é que acho que eu gostaria de ter um incentivo pra me liberar.
- Eu acho que ter um caso com um homem casado não é se liberar e sim se prender. Você entra no relacionamento sabendo que não vai ter o cara pra você. Só vai ter algumas horas de ilusão com ele e alimentar uma falsa esperança, porque a maioria diz que vai largar a mulher e não larga.
- Pior que é mesmo.
O interfone tocou e eu atendi.
- Alô? Ah, tá, pode mandar subir.
- É a Brenda?
- É. O porteiro novo não conhece por isso que interfonou.
Brenda trabalhou até as 3 da tarde, mas também chegou cedo, logo agitando:
- Vamos à praia gente?
- Agora?! – eu e Carla falamos juntas.
- Ah, gente, vamos curtir este restinho de sol de horário de verão.
Nós fomos. Engraçado o jeito de líder de Brenda que sempre animava a gente a fazer alguma coisa mesmo quando não estávamos tão a fim. Ficamos na praia até um pouco antes de escurecer. Conversamos bastante falando dos nossos planos pra 1987. Tomei todo o cuidado pra não comentar nada sobre o problema da Carla com a Brenda mesmo quando ela foi cair na água sozinha. Quando voltamos, tinha a maior bagunça na rua, o que era natural. O pessoal tava comemorando o fim do ano, mas naquela hora a agitação tava maior. Tava até difícil andar na rua. Um cara que tava mascarado nos chamou mais a atenção. Até comentamos que ele devia estar se escondendo, pois a máscara era grande, tapava até o lado de trás da cabeça. Tomamos banho e depois mais tarde, nos trocamos, usando modelitos brancos como mandava a tradição do réveillon. Por volta das 23:00, o Beto chegou trazendo champanhe. Percebi pelo jeito alegre demais dele que já havia bebido e não gostei disso. Mesmo contrariada, procurei manter o bom humor. Minha mãe ia passar o fim do ano com uns amigos num hotel onde ia ganhar um dinheiro em Copa, mas antes de se despedir, tirou fotos da gente. Brindamos todos juntos e esperamos mais algumas horas. Depois fomos à praia de Copa. Percebi que quando descemos o homem de máscara tava lá perto do meu prédio de novo, mas não dei muita importância. Tem gente que gosta de chamar a atenção mesmo e num dia de fim de ano, tudo é festa, tudo é brincadeira. Fomos a pé mesmo, pois além de ser perto nem tinha como ir de carro. Chegamos na praia pra ver a queima de fogos e parece que aí tudo estourou. Beto encontrou uns amigos tão esquisitos que como ele tavam de cara cheia. Enquanto ele conversava com alguns deles, um chegou a me dar a maior cantada e eu dei logo um chega pra lá. Beto já havia bebido em outras ocasiões, mas naquela, parecia que havia abusado mais e acho que ele não misturou só cerveja e champanhe. Brenda parecia a mais incomodada e veio até a mim.
- Lessandra, v’ambora?
- Que houve?
- Cê ainda pergunta? Seu namorado tá de cara cheia, tá super inconveniente.
Mal Brenda acabou de falar isso e eu vi Beto tascar um beijo numa garota.
- Agora vamos mesmo, Brenda. Eu nem vou falar nada com ele!
- Peraí, eu fiquei tão impressionada com o Beto e os amigos dele que esqueci totalmente.
- De que? – perguntei louca pra ir embora
- Cadê a Carla?
- É mesmo, Brenda! Ela sumiu!
- Meu Deus, cumé que a gente faz?
- Ai, não sei.
- Será que adianta a gente ficar aqui?
- Peraí, vamos perguntar se alguém a viu. – eu decidi. Apesar da minha vontade naquele momento ser de deixar o Beto plantado lá, tomei coragem e cutuquei um amigo dele que reparei que estava de olho na Carla.
- Oi. Por favor, cê viu pra onde foi a Carla?
- Ela tava meio alta e um cara mascarado a agarrou e saiu com ela.
- E você não fez nada?!
- Ih, gata, fica fria! É ano novo, tudo é festa! Acho até que ela conhecia o cara. Ele ficou fazendo um sinal com o dedo pra ela fazer silêncio. Queria fazer surpresa pra ela.
- Meu Deus do céu! – fiquei apavorada
Pela descrição achei que pudesse ser o mesmo mascarado que eu tinha visto perto do meu prédio, mas depois pensei que seria muita coincidência. Porém, outra idéia me veio à mente: “Peraí, o mesmo mascarado fazendo plantão no mesmo lugar?” Alternei o pensamento entre o será e o é coincidência demais, será que alguém pode ser tão esperto? Era difícil de acreditar. Falei com Brenda e fomos pro meu apartamento pensando no que fazer. O que teria acontecido?

CAPÍTULO XVIII

VISITA INESPERADA – CARLA
Quase duas semanas depois daquele fatídico fim de semana com Alessandra, na 6ª feira, estava eu na minha rotina de sempre pensando em dar uma esticada com uns colegas da faculdade. Fui saindo da sala conversando descontraidamente e assim que cheguei à porta, uma visita inesperada estava no corredor me esperando. Gelei, fiquei paralisada, muda.
- Oi. – ele disse
- O que você tá fazendo aqui Marcos?
- Quero falar com você.
- Não temos nada pra falar.
- Por favor, Carla. Eu te deixo em casa, mas antes vamos a um bar aqui perto.
- Mas Marcos, eu tô com o pessoal aqui.
- Pede licença, dá uma desculpa. Eu imploro, preciso muito falar com você.
- Ai, meu Deus...tá...
Mesmo um pouco hesitante, pedi licença aos colegas dizendo que ia resolver um assunto particular. Reparei que um colega que tava a fim de mim ficou decepcionado, mas como eu não tava na dele, não me senti tão culpada, pois o via só como um amigo, embora não quisesse magoá-lo. Uma colega percebeu o interesse do Marcos e ainda deu força:
- Vai fundo, menina! – ela disse.
Desci discretamente com Marcos pelo elevador e procurei manter a descrição aos olhares curiosos dos colegas. Fomos prum lugar um pouco mais afastado da faculdade, pra evitar que os colegas nos vissem e depois na primeira oportunidade me enchessem de perguntas. Lá, apesar de me sentir incomodada com a situação fiquei mais à vontade pra conversar. Nem sei explicar por que fui, mas eu ficava dominada pelo olhar sedutor do Marcos, pelo jeito dele. Quando sentamos e ele pediu um chopp, olhei firme nos olhos dele e disse:
- Marcos, isso não é direito. Você é casado. Já pensou se alguém conhecido seu nos vê aqui?
- Estamos longe de casa.
- Tá, mas pode acontecer.
- Eu não me importo. – ele disse também olhando fixamente pra mim e chegou a tocar na minha mão, mas retirei logo.
- Não, por favor... – abaixei a cabeça e quis chorar, mas me segurei.
- Desculpe, é que eu não aguento mais reprimir o que sinto por você. Sei que também tá a fim, teus olhos dizem.
- Marcos, é melhor cortar o mal pela raiz. Se você gosta mesmo de mim, deixa eu seguir minha vida em paz. Sua mulher é um amor, passa por mim sorrindo. Outro dia mesmo fiquei super constrangida. Ela disse: Jesus te ama. Pelo amor de Deus, não fica me cercando. Você tem três filhos. Não pensa neles?
- Carla, meu casamento não é nenhum mar de rosas. Minha mulher é essa simpatia que você vê, mas é uma das pessoas mais difíceis de conviver. Esta história de igreja é fogo de palha. Ela já saiu e voltou várias vezes. Fica muito bem em alguns períodos e noutros eu nem a reconheço.
- O que não é justificativa pra fugir assim e procurar outra pra servir de refresco pra você.
- Mas Carla, eu não consigo parar de pensar em você.
- Isso é conversa! Você deve ter dito isso pra muitas outras! Olha marcos, eu só tenho 18 anos, mas já conheci caras que gostam de se aproveitar. Por isso que não levei namoros adiante. Os garotões só querem garotas pra programa e depois descartam. No seu caso, você tá se justificando através da crise no seu casamento pra fazer comigo o que não deve estar conseguindo fazer com sua mulher!
- Então você acha que quero usar você como válvula de escape? Por que acha que eu ia tanto querer conversar com você? Se eu quisesse só o que tá pensando, já teria ido atrás da primeira que aparecesse.
- Talvez no momento eu seja a mais fácil pra você.
- Mais fácil? Te dei carona e nem me deu conversa. Todas as vezes que estive na academia você me evitou. Eu tinha que tentar, por isso tinha que procurar você num lugar onde me ouvisse.
- E vai arranjar problema. Deveria estar em casa numa hora destas. Que desculpa cê deu?
- Disse que ia tratar de uns assuntos com uns amigos com quem trabalho.
- Tá vendo? Mentira tem perna curta. Eu tô fora! Se pensa que vou ser “a outra,” tá muito enganado!
- Carla, você me deixa louco!
- Marcos, sem essa. Você fala como se eu provocasse você e depois caísse fora. Você é que me assedia.
- Você acha que não me provoca? Só sua presença já é uma provocação.
- Ih, sem essa, Marcos! Não sou tão deslumbrante assim.
- Mas eu tenho uma atração tremenda por você.
- Então meu caro, continue tendo, porque eu não vou consolar dores de marido frustrado.
Ficamos um pouco em silêncio e Marcos foi tomando mais tulipas de chopp, uma atrás da outra. Eu fui dura com ele, mas depois tive pena. Senti que ele não conseguia controlar os sentimentos tanto quanto eu.
- Marcos. – falei mansamente, tocando de leve a mãe dele – V’ambora, tá ficando tarde.
- Deixa eu esfriar um pouco a cabeça.
- Olha, você já bebeu muito. Te peço, toma um café e vamos. Do jeito que cê tá, eu tenho medo de entrar naquele carro. Pro seu próprio bem, faz o que eu tô pedindo, por favor. Meus pais devem estar preocupados.
Ele tomou um café como pedi e depois entramos no carro e ficamos conversando mais um pouco.
- Eu nunca senti por ninguém a atração que sinto por você. – Marcos continuou insistindo
- Eu não vou ser a outra, Marcos. Não acho certo, mas se viver com sua mulher tá tão difícil, por que não se separam? Vocês homens são engraçados! Se acomodam, preferindo viver na mentira, na hipocrisia.
Marcos parecia tenso. Me olhou fixo, desviou o olhar e sem que eu pudesse esperar me tascou um tremendo beijo na boca. Eu fiquei sem ação, só mesmo depois, quase sem fôlego, tentando me recuperar do choque, eu gritei:
- Você não tinha este direito!
- Eu tenho o direito de gostar de você Carla! Eu quero você, eu não vou desistir!
- Marcos, por favor, vamos embora!
Marcos então ligou o carro e foi sério guiando, quase sem falar. Parou num lugar de pouco movimento no meio do caminho e olhou pra mim sério, penetrante:
- Diz na minha cara que também não tá a fim de mim.
Eu não olhei pra ele, mas fiquei muito mexida. Respirei ofegante e depois falei:
- Marcos, não é certo, não é o que eu quero pra minha vida.
- E você acha que era o que eu queria? Manter um casamento assim e continuar só por causa dos filhos? Eu quero amar, ainda sou jovem! Tô com 33 anos.
- Eu tenho princípios.
- Você tem é medo.
- Tá, Marcos, o que você quiser. Medo, insegurança, seja lá o que for, mas vou ficar bem com a minha consciência se não tiver nada contigo. Agora, por favor, peço mais uma vez, me deixa em casa. Já ouvi você muito tempo.
Finalmente ele me atendeu e seguiu o caminho me deixando perto de casa. Nem sei como consegui resistir no momento que ele me beijou. Minha vontade era agarrá-lo e corresponder o beijo, mas um senso de justiça, educação, tudo aquilo que a gente aprende desde que se entende por gente ainda prevaleceu, mas como foi difícil!

CAPÍTULO XVII

RETOMANDO – BRENDA
Depois de um tempo afastada, fui numa noite na 3ª feira com dona Maria à igreja dela. A pregação foi dura. O pastor fez comparações entre Saul e Davi. Achei interessante os significados dos dois nomes; o primeiro quer dizer: pedido por Deus, o segundo: amado de Deus. Fiquei impressionada ao ouvir que Saul mandou matar o filho. O pastor deu ênfase ao egoísmo dele e mais pra frente disse que apesar de Davi ter “pisado na bola” se arrependeu. Lembrei da Carla. Alessandra contou sobre o fim de semana que ela passou lá e que tava preocupada. Eu também fiquei é claro. Apesar da gente se gostar tanto, sempre fomos muito diferentes. Meu ideal era casar, ter filhos. Meus pais pra mim sempre foram um exemplo. Com todas as lutas, tinham um casamento feliz e sei que continuavam se amando num amor maduro, sofrido pelas lutas da vida. Eles sempre estiveram dispostos a recomeçar. Eu também estava. Minha adaptação ao bairro da Penha foi muito mais rápida do que eu pensava. A loja crescia, a filial em Madureira também. Felizmente tudo tava dando certo. O próximo passo seria pra mim no começo do ano seguinte começar a faculdade. Não me arrependi absolutamente por ter trancado. Guardei dinheiro e poderia assim ter o bastante pra comprar livros ou apostilas que precisasse. Na verdade o meu desejo maior ao ir trabalhar na loja era o de retribuir aos meus pais os anos de sacrifício deles por mim. Fiquei com minha alma lavada por isso. Os últimos meses do ano davam-me a certeza de que tudo valeu. Estava pronta pra novas conquistas. Meu pai achava que eu exagerava, queria que eu me divertisse mais e sei que ele pensava que eu tinha um procedimento talvez muito maduro pra minha idade embora eu não deixasse de ser aquela menina sonhadora. Um dia, naquela mesma semana que eu tinha ido outra vez à igreja, ele conversou comigo no horário de almoço.
- Filha, eu queria muito falar com você.
- É pai? Fala.
- Em primeiro lugar queria dar a você os parabéns.
- Meu aniversário já passou. – eu brinquei
- Ah, engraçadinha! Eu quero dar a você os parabéns pelo seu empenho na loja, pela sua criatividade, pela clientela que conquistou.
- Muito obrigada. Mas acho que cê tem mais alguma coisa pra falar, até agora foi a introdução.
- Filha...eu aprecio sua determinação, mas acho que devia aproveitar mais a sua idade.
- Eu aproveito, pai.
- Será mesmo?
- Claro! Eu curto tudo o que faço.
- Mas você quase não se diverte.
- Ah, pai... É que muita coisa mudou, eu tô num outro esquema de vida. Meu trabalho é uma diversão pra mim.
- Mas você vai continuar quando for pra faculdade?
- Eu ajeito o horário, não se preocupa. Você é o meu patrão, mas não vou abusar do fato de ser meu pai
- Vocês jovens querem sempre abraçar o mundo com as pernas. Conciliar as duas coisas é difícil.
- Mas não é impossível. A Carla e a Alessandra conciliam.
- Tá, eu sei, mas é diferente.
- Nem tanto, elas vão se formar em Educação Física, tem pontos em comum com pedagogia.
- Você quer mesmo ser professora?
- Eu ainda vou ter meu colégio, pai.
- Você é tão sonhadora, filha.
- Pai, o sonho tem que permanecer na gente, se não a gente envelhece muito cedo.
- Mas como eu já disse, acho você muito madura.
- Mas não deixei de ser a sua menina. Eu quero crescer ajudando você e a mamãe e continuar sendo uma menina pra crescer com as crianças que vou conhecer, depois crescer pra conhecer quem será meu marido e crescer pra ter meus filhos e continuar a eterna criança que sou, que sempre quer crescer.
- Pôxa, filha... Entendi sua mensagem. A gente tá sempre crescendo, né?
- É, pai. Se a gente achar que já aprendeu tudo, a vida fica muito chata, muito sem graça. É natural que você tenha zelo por mim. A mamãe concorda com você eu sei, mas fica mais na dela. Eu gosto tanto de fazer coisas pra você, ajudar mamãe na cozinha, tirar os sapatos dela e colocar chinelos pra ela descansar quando chega do trabalho. Ajudar a fazer os bolos. Pai, eu nasci pra viver com família e lidar com gente. A vida é mais rica, tem mais beleza assim.
- Pôxa... Você é uma filha de ouro... Me deixa emocionado. Mesmo assim, ouve teu pai, não fica num ritmo acelerado demais quando iniciar a faculdade e antes de reabrir a matrícula, curte. Você há tanto tempo nem tem um namorado.
- Mas vai chegar o momento certo, pai. Por enquanto nem penso nisso. Verdade. Primeiro eu preciso conquistar o que é meu pra depois saber quando como e com quem vou dividir. Uma relação a dois deve ser muito bem pensada e eu só quero namorar tendo a certeza de que é o rapaz certo. Os que eu tive em Ipanema não contaram, não acrescentaram, foram coisa de menina, adolescente. Agora que eu tô entrando na vida adulta quero ter responsabilidade pra tudo, principalmente prum relacionamento sério.
- Filha, qualquer dia eu vou pedir conselhos a você.
- Eu guardo os bons conselhos que tive seus e da mamãe.
- Estava lembrando agora que você estréia como eleitora em breve.
- É mesmo.
- Já sabe em quem vai votar?
- Ainda não. Parece tudo igual. Os debates cansam, a propaganda política é o horário que a gente aproveita pra lavar a louça. Já aproveitei até pra lavar a cozinha. É mais produtivo.
- Você vai votar onde?
- Numa escola aqui perto.
- Vote consciente.
- Nem que seja em branco.
- Assim cê dá voto pra alguém que não queira dar.
- Ah, sei lá! Talvez eu vote no candidato que não seja tão ruim.
Eu continuava indo à igreja e quando meus pais inventavam algum passeio ou outra coisa que me prendesse em casa ou me fizesse acompanhá-los no domingo, ia num dia da semana. Fiquei cada vez mais curiosa sobre a Bíblia e comentei com dona Maria que queria entender melhor algumas passagens, queria ter mais facilidade em manejar a palavra de Deus. Foi aí que no fim de um culto numa 3ª feira ela ofereceu:
- Aqui está um presente pra você, uma chave bíblica pra encontrar com mais facilidade o que quiser saber.
- ‘Brigada, dona Maria! – agradeci abraçando e beijando muito aquela senhora que era tão carinhosa e que regava em mim o crescimento de curiosidade e interesse pela palavra de Deus.
Naquela mesma noite, antes de deitar, a propósito da proximidade das eleições, procurei na chave bíblica a palavra eleitos e chamou-me mais a atenção o que vi assinalado em Isaías 65 : 22: “Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam; porque os dias do meu povo serão como os dias da árvore, e os meus eleitos gozarão das obras das suas mãos.” Refleti sobre isso pensando em como seria bom um governo no qual os dirigentes fizessem boas obras. Eu sempre me considerei apolítica, mas pensava muito no bem estar das pessoas pois tinha a intenção de formar cidadãos conscientes. Desde cedo pensava no próximo, em alertar sobre os enganos da vida às pessoas mais novas ou da minha idade. Por isso sei que pra Alessandra e Carla eu era careta. Elas não eram individualistas, mas agiam mais por impulso, sem pensar muito. Alessandra era a mais impulsiva de nós. Porém, sei que quando convivíamos diariamente eu tinha alguma influência sobre ela, sempre a alertando, ponderando. Carla muitas vezes parecia perdida. Seus pais eram bons, mas às vezes um pouco rigorosos demais. Já os meus davam a medida certa, sempre me senti segura com eles. Mudanças começaram a ocorrer desde que passamos a morar longe uma da outra, mas de uma coisa eu sempre tive certeza: apesar da distância, levei o coração delas comigo. A alegria de cada uma era a minha alegria. A tristeza, a minha tristeza e a vitória, a minha vitória.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

CAPÍTULO XVI

TENTANDO ESQUECER – CARLA
Não sei o que seria de mim se não tivesse amigas tão fiéis como Alessandra e Brenda. Pôxa...elas sempre se esforçaram pra me ver feliz. Eu tava vivendo uma revolução, uma batalha sem armas contra um inimigo que desconhecia, pois o verdadeiro inimigo, é invisível. Hoje eu entendo o que se passou comigo, mas têm situações que levam anos pra ser entendidas. Eu compliquei, é verdade, mas hoje consigo entender.
Alessandra me convidou pra passar um fim de semana na casa dela. Logo depois do trabalho fui pra lá e cheguei ainda cedo. Curtimos muito a praia e conversamos. Pra ser sincera, achei melhor a Brenda não estar, pois, mesmo sendo uma boa conselheira, eu na época a achava a mais careta de nós três, mas nunca deixei de amá-la por isso. Minha doce amiguinha Brenda, tão sensata, por que não a ouvi? Mas é assim mesmo. Muitas vezes as pessoas que mais nos amam nos alertam, a gente não ouve e quebra a cara. Mergulhamos juntas, brincamos na água como duas crianças. Depois sentamos nas nossas cangas e conversamos:
- Ai, Lessandra, ‘brigada por ter me convidado. Tava precisando deste sol de Ipa, dessa água. Pena que ela não lava meus maus pensamentos. Queria que servisse pra lavar minha alma.
- Carla, amiga, para de se torturar. O que eu posso fazer mais pra você se sentir melhor?
- Não sei Lessandra. Nunca me senti assim. Tô mexida, apaixonada pela pessoa errada.
- É duro, amiga. A gente não escolhe de quem vai gostar. Eu não tô apaixonada, não vivi uma emoção tão intensa assim. Sei que falei umas coisas da boca pra fora sobre o Allan mas pelo menos descobri que não sou a pessoa fria que parecia ser. Eu queria me fazer de forte, mas descobri que tenho uma grande fraqueza. Todos nós temos, mas as nossas são diferentes. Espero que minhas ainda muito poucas experiências sirvam pra você, como as suas sirvam pra mim. A gente tá sempre aprendendo, vamos tirar um proveito dessa união de anos que a gente tem. Nossa vantagem sobre muitas pessoas que podem estar passando por coisas parecidas é a nossa amizade. Eu não posso ver nem você nem a Brenda sofrendo. Me faz muito mal, eu não fico em paz, não fiquei nada bem naquele dia do churrasco.
- Eu agradeço.
- Não é preciso agradecer, você também ficaria assim por mim.
- É...eu já fui egoísta também. Quando a gente soube no mesmo dia que ia em breve se separar, seu problema era muito maior que o meu, que o da Brenda.
- É humano a princípio achar que ninguém tá com um problema maior que o nosso. Mas depois a gente sai daquela redoma e vê a realidade. Eu precisei de mais apoio, você e a Brenda deram, mas passou. Este momento agora é seu. Se a Brenda passar por dificuldades, a gente com certeza vai dar apoio à ela.
- Eu tô até me sentindo mal por estar mais à vontade sem ela aqui. Ela sempre foi tão mais ajuizada, ponderada.
- Ela quer o seu bem.
- Eu sei. Pra dizer a verdade eu até me sinto traindo a Brenda.
- Eu hein?! Por quê?
- É que... Lessandra, tá mais forte do que eu, acho que se o cara continuar me assediando, vou esquecer da culpa, esquecer da mulher dele, da educação que meus pais deram, dos conselhos da Brenda e...vou à luta por ele!
- Cuidado, Carla. Você tá muito seduzida pelo cara, usa a cabeça. Você pode estar cedendo ao desejo à atração e depois pode se machucar. Homens assim têm uma conversa boa, um jeito atraente, depois conseguem o que querem e jogam a garota fora.
- É...você pode estar certa.
- Sabe o que eu acho? Você nunca teve um namoro de verdade, sempre achou os garotos daqui de Ipa vazios, imaturos. Você gosta de homens mais velhos e esse cara te atrai por isso.
- Falou a psicóloga.
- Ah, querida, eu posso até nem entender a minha mente, mas a dos outros eu consigo até bem melhor. O que cê tá passando serve pra eu pensar porque não nego que eu poderia assim, como você disse, agir por impulso e me machucar também, claro.
- É muito difícil lidar com a vontade, reprimir o desejo. Parece que o proibido atrai mais.
- Eu entendo, mas...pôxa, Carla, com tanto cara pra você se interessar, tinha que ser logo por esse?
- Pra você ver...sei lá Lessandra, é uma coisa que eu não sei controlar.
- Eu acho que cê tá até controlando. Senão, não estaria aqui agora.
- É, mas não sei até quando. Foi bom desabafar com você e com a Brenda, mas não tiro o cara da cabeça.
- Sabe o que cura isso? Uma boa saída à noite. Vou ocupar sua cabeça com outras coisas, quem sabe você não conhece outro cara pela “night de Ipa”?
- Ah, mas e aí? Eu morando em “Paci”?
- Vamos só curtir, amiga! Não pensa em compromisso. Se algum cara daqui gostar de você, vai querer logo te visitar lá e pode ser que seja o príncipe que te traga de volta a este bairro.
- Tá, eu topo.
Ficamos mais um tempo na praia conversando sobre meus sentimentos confusos em relação ao Marcos. Contei sobre aquele dia que me vi forçada a aceitar a carona dele, que seu Arnaldo tava apoiando uma traição.
- Esses homens, são quase todos iguais. – Alessandra analisou – Digo quase, não por que eu ponha a mão no fogo por algum até que me seja provado o contrário, mas também procuro acreditar que em algumas coisas eles possam ser diferentes.
- O Beto quis se dar bem logo. Quando viu que cê não ia querer mais o Allan entrou dentro.
- É. Neste aspecto ele é igual a todos, mas acredito que neste momento não deve estar com outra. Nisto acho que ele deve ser diferente.
- Lembra quando a Brenda sugeriu esta hipótese em relação ao Allan?
- Lembro...eu falei da boca pra fora. Doeu vê-lo naquela noite justo com a Adriana. Foi uma dupla traição. Um cara com quem eu jogava aberto e uma garota que se dizia minha amiga.
- Será que ele não ia mesmo contar pra você, ou ela mesma não faria isso?
- Acho difícil. O que acontece é que as pessoas se envolvem, aí ficam com medo, deixam passar o tempo, arranjam desculpas e aí a gente sabe dessas coisas da pior maneira possível, como eu soube.
- Essa sua observação é um sinal de que você perdoou os dois.
- Eu sinto que sim. Encontrei com ele várias vezes na academia e ele ficou com vergonha de me cumprimentar, mas eu fiz questão de dar bom dia. Adriana também tava lá outro dia e eu também cumprimentei. Eu sou civilizada e sei que também colaborei pra situação chegar ao ponto que chegou. O sofrimento faz a gente amadurecer. Eu tô fazendo tudo pra que com o Beto seja melhor, mas ele também não é o amor da minha vida.
- Será que nós vamos saber o que é isso?
- Acho que você vai saber antes de mim.
- Não sei...acho que por um lado tento esquecer, mas por outro, tô quase caindo numa armadilha. Eu sempre disse que me entregaria ao homem certo na hora certa. Como é difícil ter coerência dos sentimentos com o que se pensa.
- Isso não é privilégio seu. Eu não fui coerente achando que ia conseguir ter um relacionamento tão aberto com o Allan. A gente pensa que sempre vai conseguir controlar os sentimentos, os pensamentos e as circunstâncias da vida mostram que não é tão simples como a gente pensa.
Voltei com Alessandra, descansamos, comemos e mais tarde o Beto ligou chamando Alessandra pra sair. Ela disse que me levaria e que não queria que eu segurasse vela. Foi aí que o Beto teve a idéia de levar um amigo dele, o Alex. Assim, fomos todos a uma danceteria em Copa. Alex até que era bonito, mas embora eu tentasse, não consegui me interessar por ele. Parecia um cara necessitado. Dançou comigo as músicas agitadas, mas depois nas lentas, deu pra me agarrar com uma força, que eu quase sufoquei. Com jeito, consegui sair daquela situação embaraçosa e pedi pra parar um pouco que eu tava cansada. Sentamos e o papo dele era muito chato. Só falava na faculdade, namoradas que teve, que as garotas tavam muito exigentes. Na primeira oportunidade que tive, falei com Alessandra que queria ir ao toalete e pedi que me acompanhasse. Entramos e eu falei assim que entrei.
- Lessandra, v’ambora?
- Por que Carlinha?
- Eu sei que sua intenção foi boa, mas aquele cara é um chato! Que papo mais furado que ele tem, como é vazio! Tô entediada!
- Carla, se coloca no meu lugar. Beto queria sair comigo e pra você não segurar vela, trouxe uma companhia. Guenta um pouco, menina. Será que não é você que tá com má vontade?
- Lessandra, desculpa, mas cada vez mais eu chego à conclusão que não me afino com garotões, gosto de homens mais velhos.
- Ai, Carla, eu tenho tanto medo que este seu gosto te leve a sofrer mais do que tem sofrido.
- A gente não escolhe de quem gosta.
- É, mas o cara tem a mulher dele lá e tá tirando seu sossego.
Fiquei de cabeça baixa, quase querendo chorar e Alessandra segurou meu queixo olhando firme pra mim.
- Cabeça erguida, Carla. Tenta curtir, eu tô aqui contigo, sempre que precisar.
Voltei e sentei, mas meu pensamento ficou distante e eu não conseguia aturar o papo do Alex. Como não ia pedir outra vez à Alessandra pra sair, como uma válvula de escape tomei uma bebida. Quando ia pedir outra, um cara que tava perto me ofereceu a dele e achei muito forte, engasguei e ele bateu nas minhas costas. Ficamos conversando. Ele era um pouco mais velho do que eu, até o achei atraente. Mas meu interesse durou pouco quando uma garota apareceu e disse pra ele na maior bronca:
- É só eu virar as costas que você começa, né?!
- Tô saindo fora! – eu disse dando as costas, fazendo questão de ignorar o que a garota dizia. Fiquei chateada e sentei ao lado do Alex, pois vi que não tinha outra saída. Bebi do copo dele e pedi mais bebida. Alessandra estranhou, mas eu disse ao ouvido dela:
- Pelo menos assim, eu consigo agüentar. – bebi de um só gole um copão. Pra extravazar, peguei Alex pela mão e o chamei pra dançar. A música tava agitada eu pulei, comecei a fazer palhaçadas. Me desequilibrei e acabei caindo. Ele me ajudou a levantar e eu fiquei com vergonha e chorei. Ele ficou preocupado, foi até legal comigo. Fez carinho no meu rosto me levou pra sentar.
- Cê tá bem? – ele perguntou, oferecendo um lenço pra eu enxugar as lágrimas.
Cobri meu rosto com o lenço e chorei muito mais. Foi um vexame. Alessandra foi compreensiva e me abraçou. Falando ao meu ouvido.
- Que é isso, amiga? Agora a gente vai. Cê não tá bem.
Eu abracei Alessandra forte e falei chorando.
- Me ajuda...
- Claro que ajudo, mas vamos lá pra casa, não fica assim.
Fiquei do lado de trás do carro com a cabeça no ombro de Alessandra que me consolava. Ela saiu antes do carro pra se despedir do Beto, que senti que estava chateado.
- Cê tá bem, gatinha? – Alex perguntou
- Não...tô péssima! – respondi chorando mais
- Como é que você, uma garota tão linda pode estar assim, tão triste? Cê tem uma vida pela frente.
- Eu queria é não ser linda como você disse! Queria que não olhassem tanto pra mim, preferia até ser feia, horrível pra não me sentir assim...deixa pra lá, desculpa...você não tem culpa de nada!
- Tá, eu também me desculpo pois queria ajudar e não consegui.
- Vamos, Carla. – Alessandra chamou e me amparou.
Beto ofereceu ajuda. Os dois me seguraram e Alessandra despediu-se dele e imediatamente me pegou e me colocou no chuveiro frio. Fiquei com tanta vergonha de ter dado o trabalho que dei! No dia seguinte não conseguia olhar pra Alessandra. Ela foi tão paciente, trouxe um chazinho pra mim.
- Desculpa Alessandra...perdão...- eu disse chorando
- Carla, não vai começar um novo festival de lágrimas. Eu entendi, não faz drama e toma este chá. Um dia você vai rir de tudo isso.
- Será?
- Não pensa mais nisso. Pensa no que você precisa fazer, na sua faculdade, no seu trabalho. Desliga. Vamos em frente.
Ai se fosse tão fácil! Eu até que tentei, mas sabia que no dia seguinte ficaria pertinho da boca do lobo.

CAPÍTULO XV

ABRINDO O JOGO – ALESSANDRA
Gostava de sair com o Beto. No início, acho que foi pra me vingar do Allan, pois assim que terminamos, o Beto apareceu e não perdi tempo, aceitei o consolo que ele me ofereceu e assim, valeu a troca. Troca parece um termo frio, mas Beto também não era o amor da minha vida. Mesmo assim, continuei a investir naquela relação que me dava mais satisfação. Com o Beto foi muito diferente, pois comecei a considerá-lo namorado mesmo, de andar de mãos dadas, coisa que eu pouco fazia com o Allan. Saíamos juntos e ele foi muito compreensivo quando no churrasco na casa da Brenda eu pedi licença e ficamos ouvindo a Carla. Esperou numa boa, sem reclamar nada. Continuamos a sair muito juntos e num fim de semana, de sábado pra domingo, num barzinho aproveitei pra me abrir com ele.
- Beto, eu quero te dizer uma coisa, ou melhor, muitas coisas. Eu me acho assim...complicada, sabe? Eu tenho um pouco de medo de me amarrar, acho que fiquei traumatizada com a separação dos meus pais. No íntimo eu sentia que eles já não tavam bem, mas queria me enganar, eles se acomodaram e eu também. Pra dizer a verdade, até hoje me sinto culpada pela separação deles.
- Mas que é isso, você não teve culpa...
- Deixa eu terminar, por favor.Eu sei que filhos não seguram um casamento, mas na minha cabeça eu devia ter encontrado um meio de unir os dois. Às vezes eu acho que inconscientemente me castigo como se não merecesse gostar verdadeiramente de alguém ou tivesse medo, resistência. Por isso eu não digo coisas como: te amo, mesmo por que ainda é cedo pra isso. Não acredito em amor à primeira vista e sim em atração. Não sei o que você pensa, mas não tô terminando com você, só senti necessidade de me abrir. A gente já sai junto há algum tempo, ficamos logo íntimos, então tô abrindo o jogo, jamais vou ser falsa sobre o que sinto. Agora, fala alguma coisa, pelo amor de Deus.
Beto me ouvia com atenção, com o olhar fixo e tranquilo. Quando acabei de falar, senti que ele gostou da minha sinceridade. Pegou na minha mãe com carinho e disse:
- É bom botar pra fora o que sente, mas eu também não cobro nem espero nada demais de você. Acho que você é fiel, não tem nenhuma intenção de me enganar, mesmo por que também há muito tempo eu tinha atração por você. Só ficava na minha por causa do Allan.
- Eu sei, mas nem eu nem você perdemos tempo, né?
- Você se sentiu liberada quando viu o Allan com a Dri.
- Fiquei com raiva dos dois, por que ela se fazia de amiga e ele deve ter achado que eu não fosse fiel.
- Você disse que tem medo de gostar verdadeiramente de alguém, mas acho que comigo tá sendo diferente. Ele não ia a todos os lugares com você. Eu já conheci em pouco tempo suas amigas que você tanto falava.
- Eu acho que tô tentando ser diferente.
- Tá conseguindo.
- Eu não tenho muitas expectativas, nem faço planos, mas você é mais companheiro do que o Allan.
- Eu tô de acordo com você. Mas acho que o medo de gostar mais, pra ser mais direto, de amar, não é só seu. Metade da humanidade tá assim. Muita gente tá se separando, namoros não duram, as pessoas por qualquer coisa ‘tão insatisfeitas.
- É. Eu procurava me satisfazer com o Allan, mas ao mesmo tempo não queria sofrer, por isso não soube conquistar nem deixar que ele me conquistasse totalmente. Pensando bem, nós dois fomos os culpados de não ter dado certo.
- Claro, foi sim. Tudo por medo.
- O medo impede o amor.
- É...
- Beto, diz sinceramente sem se sentir pressionado. Você me ama?
- Eu gosto muito de você. Sinceramente. Atração física eu tive desde o primeiro momento. Sei que a gente foi muito rápido e nem pensamos, mas você pra mim é uma pessoa especial. Se não der certo, vamos sempre ser amigos. Não quero nunca magoar você.
- Eu também não quero magoar e nem ser magoada.
- Mais uma coisa temos em comum.
- Você acha que também tem medo de amar?
- Acho que tenho um pouco de cuidado. Apesar de ter sido muito impulsivo no começo, de querer muito você e não ter segurado minha atração, tô me dando a chance de conhecer você melhor e uma coisa já apreciei muito na sua personalidade.
- É? O que? – perguntei sorrindo, satisfeita por ter ouvido o que nunca ouvi de ninguém.
- Você é muito amiga. Eu fiquei muito sensibilizado com o carinho que você dispensou àquela sua amiga, a moreninha, qual é mesmo o nome?
- Carla. Ela é muito importante pra mim, Beto, amo muito aquela menina, ela e a Brenda são pra mim mais do que irmãs, fomos criadas e crescemos sempre juntas, estudando no mesmo colégio. Ela tava com um problema que por um imenso respeito por ela não devo falar, mas fico mais triste do que se fosse comigo. Consegui manter a calma pra dar força pra ela, porque sei que ela faria o mesmo por mim, mas cê mesmo foi testemunha de como voltei chateada, triste, pensando como posso ajudar a Carlinha. Minha vontade era de ter ficado com ela abraçada, botar até no meu colo pra que ela deixasse aquela cascata de lágrimas jorrar inteira até secar, até ter certeza de que toda aquela dor tinha passado. – derramei lágrimas por Carla e Beto as colheu com o dedo indicador, acariciou meu rosto.
- Não fica triste, Lessandra, têm coisas que não tem jeito, as pessoas têm que passar por dores mesmo. Sorte dela ter amigas tão fiéis como vocês.
- Eu sei...mas ela tá sofrendo...tadinha.... Tô em falta com ela. Fico aqui falando dos meus problemas que não são piores do que os dela. Eu vou convidar minha amiguinha pra ficar um fim de semana comigo, ela precisa mudar de ambiente, curtir a praia de Ipa. Pode não resolver, mas quero fazer tudo pra suavizar a dor dela.
- Assim é que a gente se fortalece, Lessandra. Lembrando dos outros. O ser humano não nasceu pra viver só.
- Engraçado, como são as coisas. Anos mais tarde tomei conhecimento desta passagem: “E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2 : 18 - a), aí me veio à mente o que Beto havia dito naquele dia. Pensei na profundidade disso e como o Beto foi usado por Deus sem saber. Cheguei à conclusão que eu tinha uma raiz de amor muito grande em mim que eu mesma desconhecia. Minhas amigas queridas, Brenda e Carla, minhas almas gêmeas. Eu, ser humano imperfeito como todos, tive muitas falhas, inclusive com essas maravilhosas pessoas com quem sempre troquei confidencias, que me deram apoio e eu tentei sempre retribuir. Nossa amizade sempre foi tão especial, que não havia pessoas por quem eu pudesse sofrer mais. Se eu errasse com elas, sentia profundamente as conseqüências do erro. Fui injusta com elas também, mas aprendi com elas, sofri com elas, chorei com elas, sorri com elas, errei e acertei com elas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

CAPÍTULO XIV

INTERRUPÇÃO E PREOCUPAÇÃO – BRENDA
Nem tudo acontece tão perfeito. A semente é plantada, mas precisa ser germinada e quando não há quem regue, quem cuide, a planta pode morrer. Mas se houve um período de descuido e o jardineiro percebendo que aquela planta ainda pode crescer e florescer, não vai cortá-la fora e cuida dela outra vez. Portanto, meu crescimento inicial já havia acontecido e o jardineiro depois daria prosseguimento ao meu crescimento. Houve uma interrupção, mas tudo na vida tem um tempo. Eu estava com meus planos definidos para domingo, quando meu pai avisou:
- Neste domingo fica em casa filha. Suas amigas vêm prum churrasco aqui.
- Ah, pai, que pena...
- Pena?! Alessandra e Carla vêm prum churrasco aqui e você diz isso?!
- Não, é que dona Maria convidou pra ir à igreja.
- Vai ter muitas outras oportunidades, filha. Você agora quase não vê suas amigas.
- Tá pai.
Fiquei feliz por que ia ver Alessandra e Carla, mas chateada, pois queria ir à igreja com dona Maria. Porém, achei que um domingo a menos não faria tanta diferença. Pensei em ir cedo e voltar logo, mas minha mãe queria minha ajuda na cozinha. Foi bom porque eu reparei que a Carla tava muito inquieta. Alessandra parecia melhor, foi até com o novo namorado, o Beto, um rapaz muito simpático. Carla conversou bem menos e ficou num canto. Aproveitei que o pessoal tava mais animado conversando entre si e cheguei perto dela.
- Carlinha...- toquei delicadamente em seu ombro, mas mesmo assim ela assustou-se um pouco
- Ai!
- Desculpa, cê tava aí tão quietinha
- É...eu tava pensando.
- Em, que fofinha? Tá com uma cara assim...chateada
- Brenda...ah, deixa pra lá!
- Fala.
- Brenda, eu não tô me sentindo bem, não tô numa boa. Claro que achei bom vir pra te ver, mas tô com uns pensamentos que não consigo tirar da cabeça, não tô me sentindo à vontade em lugar nenhum.
- Mas houve alguma coisa?
- Houve, mas é dentro de mim, não é com ninguém, só comigo.
- Algum sentimento que você não consiga controlar?
- É por aí, mas acho melhor não falar.
Naquele exato momento, Alessandra veio até nós.
- Gente, tava olhando vocês conversando aí, parecendo que ‘tão de segredinhos e me deixando de fora?
- Nem deu tempo da gente ficar de segredinhos, você veio antes que a Carla pudesse falar alguma coisa.
- Ih, então tô atrapalhando? – Alessandra ficou surpresa com minha resposta que não foi intencional
- Não, desculpa, é que ela tá aí com essa cara que eu até pensei que tava acontecendo alguma coisa grave e até agora enrolou, enrolou e não falou nada.
- Ah, crise existencial! – Alessandra deu ênfase num tom de brincadeira
- Gente, eu não tô a fim de falar, cês assim me pressionam, eu não gosto disso! – Carla parecia quase explodir
- Calma Carla. – eu ponderei. – Só queremos ajudar.
- Eu não quero que meus pais também comecem a perguntar, tô vendo eles olharem pra cá.
- Vamos pra fora? – sugeri.
Continuamos a conversa no terraço.
- Carla, nós somos suas amigas e vamos dar nosso apoio. – eu iniciei
- Mas é claro! – Alessandra concordou – Eu deixei o Beto lá, pedi licença por que desde que cê chegou tá assim calada. Fiquei preocupada com você.
- Gente, ‘brigada pela consideração de vocês, mas eu não consigo falar, nunca pensei que ia me sentir assim.
- Pelo menos tenta Carla. – Alessandra insistiu – Cê fala, fala e não diz nada.
- Mas é que eu tô com sentimentos tão confusos, não sei como lidar.
- É amor, né? – eu deduzi
- É... – Carla abaixou a cabeça quase chorando, mas segurou-se, ficou com os olhos bem abertos evitando que as lágrimas viessem.
- Carla, gostar de alguém, não é ruim. – Alessandra argumentou
- Mesmo quando a pessoa não pode ser sua? – Carla a olhou fixamente
- Carlinha... – Alessandra teve compaixão e a abraçou. Foi aí que Carla desabou no choro e a levamos pro banheiro pra lavar o rosto. Ela ficou com Alessandra e eu trouxe água. Ela bebeu e acalmou-se.
- Eu não queria me sentir assim, mas foi mais forte do que eu. – Carla disse
- É melhor esquecer isso, Carla. – eu aconselhei
- Mas se o cara tá numa situação da qual ele quer sair? – Alessandra sugeriu a possibilidade – Você pode lutar por ele.
- Não é assim...ele..ele... – Carla ficou novamente com a voz embargada, mas finalmente falou – Ele é casado! Tem três filhos! – e desatou outra vez no choro.
- Então esquece, Carla! – eu disse
- Não é tão simples assim, ele mora perto, pôxa, tá sempre na academia! Pensam que eu não tentei?! Acham que eu queria sentir isso? A mulher dele é um amor de pessoa, vai à igreja perto da academia, outro dia ainda disse pra mim com a maior sinceridade, com o olhar mais puro que há muito tempo eu não via em alguém: Jesus te ama! Eu me senti horrível!
- Carla, amiga, numa boa, queridinha, respira fundo, se controla. Cê disse que não queria que seus pais vissem você como tava, se chorar alto eles vão acabar ouvindo e vão vir até aqui pra saber o que tá acontecendo. – Alessandra aconselhou.
- Eu tenho que me conter mesmo. Conter o choro, conter os sentimentos...uma vida de contenção! – Carla desabafou. Felizmente conseguiu se recompor. Lavou o rosto outra vez, bebeu mais um pouco de água e voltou pra sala. Quando nos despedimos, dei um abraço forte nela e falei ao seu ouvido:
- Conta comigo, amiga. Vou estar do seu lado. Mas me ouve, você deve esquecer o cara, isso não dá futuro.
- Tá...- ela respondeu como se concordasse, mas eu senti que seu maior desejo era entregar-se a ele.
Alessandra voltou com o namorado e sua mãe levou Carla e seus pais pra casa, como sempre fazia. Eu fiquei só pensando em Carla e até sonhei com ela. Sofri por causa da minha amiguinha, como nem por uma irmã eu sofreria. Elas sempre foram tão preciosas pra mim e eu agora via uma das duas sofrendo tanto. Alessandra parecia melhor. Contou o episódio com Allan e comparando com Beto, sentia que ela tava se abrindo mais, não tava com tanto medo de gostar mais de um cara e tratá-lo como namorado mesmo, convidando pra onde também fosse convidada. Talvez estivesse mesmo tentando consolidar este novo relacionamento. Parecia um pouco mais madura. Eu depois de namorinhos, não pensava ainda em ter ninguém. O trabalho na loja e em casa me consumia muito tempo. Foi melhor assim. Um ditado popular diz: “Mente desocupada é oficina de satanás”. É pena que tanta gente ocupada ainda dê espaço pra ele.

CAPÍTULO XIII

EMOÇÕES – ALESSANDRA
Agora com um carro eu podia dar meus giros, levava uma galera de volta da faculdade. Eu me sentia a tal sob quatro rodas, mas no íntimo, sentia que alguma coisa me faltava e eu não sabia o que era. Apesar da minha relação aberta com Allan e de sempre afirmar que não queria um compromisso sério, que não pensava em casar, acho que não era bem assim. Eu não me permitia. Eu não queria sofrer como minha mãe. Achei um gesto nobre da parte dela convidar meu pai pro meu aniversário, mas o que mais me surpreendeu foi a volta por cima que ela deu, uma mulher de fibra, que retomou sem medo a profissão de fotógrafa. Um dia, ela propôs ao Alberto, o dono da academia o que já tinha falado comigo:
- O que você acha da Alessandra aparecer em alguma propaganda da sua academia? Tirei umas fotos boas dela com roupas de ginástica, eu posso mandar pra agências.
A idéia foi a partir das propagandas que a Carla fazia pra academia em que trabalhava. Mais uma coisa que tínhamos em comum. Porém, nós duas teríamos com o tempo outras coisas mais em comum. O tempo...ai o tempo...pelas experiências que tivemos, nós viríamos a pensar em como teríamos sido mais felizes na vida se não tivéssemos agido tanto por impulso. Mas felizmente, nossa amizade foi o bem mais precioso que conquistamos. Brenda sempre foi a mais ajuizada, eu a mais impulsiva e Carla que sempre foi mais presa, parecia estar se soltando mais e eu achava bom, mas não entendia nada da vida, nem o quanto isso poderia custar, tanto a ela quanto a mim. Nós, fracos seres humanos sabemos que podemos errar, mas preferimos quebrar a cara ao invés de ponderar, buscando os exemplos de pessoas mais maduras e aprender com elas. Por que a gente é tão teimosa e depois sofre tanto? Isso também eu e Carla tivemos em comum. Seguir nossas vontades, nossos desejos, alimentar os impulsos e não ouvir a voz da razão, só a da emoção. Emoções eram só o que eu naqueles meus 18 anos queria viver. Mas as emoções também custam caro. Eu brincava com os meus sentimentos e com os dos outros. A vida traz estas ironias que a gente só percebe quando leva uma grande bofetada. Foi o que eu senti num fim de semana em que o Allan disse que tava cansado e que não queria sair. Assim, tudo pareceu aramado pra que eu começasse a apanhar e sentir a dor do que é ser usada. Mas e eu, será que não fazia o mesmo? Resolvi sair sozinha, dar uma caminhada por Ipanema e quando estou do outro lado da rua, quem vejo saindo de um bar? Allan. Quem tava com ele? Adriana, uma garota que se dizia minha amiga. É como falavam muito naquela época: “o castigo vem à cavalo”. Segui os dois, estavam conversando animadamente no bar. De lá, entraram na danceteria. Resolvi: vou até a danceteria. Entrei, tomei uns “tragos” pra me sentir com mais coragem. Muitos pares dançando e numa dança mais acelerada, quando Adriana que já tava alta e girava num passo de dança separou-se de Allan, eu entrei no meio.
- Oi! – eu disse num tom bem provocador olhando fixo pra ele.
Adriana ficou muda, de olhos arregalados. Eu a encarei também.
- Oi, Dri, continua a dança, cê tava tão inspirada.
- Pô, Lessandra, qual é? – Adriana resolveu me enfrentar
- Qual é pergunto eu sua...
- Sua o que?! Vai me xingar é?! Cê sempre disse que não tinha compromisso sério com ele!!
- Gente...vamos parar... – Allan tentou intervir
- Cala a boca seu galo garnizé! – falei pra ele – O assunto agora é entre mim e essa vadia que se dizia minha amiga!
- Ah! Essa é demais! – Adriana gritou – Você se acha santa é?
- Cala essa boca você também! Com tanto cara pra você sair, tinha que ser com ele?!
- Lessandra, a gente se gosta, eu ia te falar, mas... – Allan tentou explicar
- Mas teve peninha de mim? Isso não é papel de homem, tá? Se não me queria mais, podia ter me falado! Vocês homens são todos convencidos e iguais! “Se acham” por que malham em academia, querem ter um harém em volta, mas eu joguei limpo com você, não saí com nenhum outro, muito menos aceitei convite de alguém que fosse seu amigo!
- Que?! Que amigo meu deu em cima de você?!
- Não interessa! Agora que já tá com ela, faça bom proveito! – peguei Adriana e joguei em cima dele. Ela quis partir pra cima de mim, mas ele segurou. Beto, um “amigo” dele que tava lá querendo se dar bem, me pegou e me tirou de lá
- Me solta!! – eu gritei, mas ele continuou me segurando e falando bem manso comigo.
- Lessandra, vem comigo, cê não tá em condições de ficar aqui assim.
Mesmo resistindo acabei aceitando o cuidado do Beto comigo e fui embora com ele, que aliás foi amável demais comigo e...seria melhor que não tivesse sido tanto. Paramos num bar próximo e ele teve muita paciência, pois eu tava meio tonta, de pileque.
- Toma este café. – ele ofereceu com jeito, me olhando bem nos olhos.
- Não quero porcaria de café nenhum! – gritei com raiva, mas Beto continuou com paciência.
- Lessandra, você sempre disse que não queria um compromisso sério com o Allan, por que essa bronca?
- Minha bronca é pela mentira! Se ele não tava mais a fim, que jogasse aberto!
- Lessandra, por favor, toma o café. – Beto empurrou a xícara pra perto de mim e eu acabei aceitando.
- Hum...tá amargo! – reclamei.
- Precisa ser, pra passar a bebedeira. – Beto argumentou
Virei de uma vez só o café pra me ver livre. Fiz careta, até. Beto ficou calmo com o olhar fixo em mim.
- Desculpe o que eu vou perguntar, não leve a mal, mas cê sempre foi fiel? Nunca saiu com outro mesmo?
- Fui! Sempre fui sincera e se tivesse atração por outro e quisesse terminar com ele, eu diria!
- Mas, seja sincera, você nem sequer olhou pra outro?
Fiz uma pausa, abaixei a cabeça, depois olhei também fixo pro Beto, assim como ele olhava pra mim e respondi bem firme:
- Eu olhei pra outros, sim. Lá na academia o que não falta é homem bonito, mas eu gostava da companhia dele e mesmo atraída por outros, nunca deixei que crescesse algum sentimento em mim e sempre rejeitei cantadas, convites, que não faltaram e não foram poucos.
- Tá, mas agora pensa que cê tá livre pra partir pra outra, ou melhor, pra outro.
O olhar do Beto ficava cada vez mais penetrante, sedutor, as palavras ditas com um jeito manso, envolvente e assim, naquela mesma madrugada, botei em prática o dito popular: “Rei morto, rei posto!” Beto passava a ser naquele momento o meu rei e durante um tempo eu me sentiria uma rainha.